A FINALIDADE DA PSICOTERAPIA É ENTENDER O QUE ESTÁ OCORRENDO COM O PACIENTE, PARA AJUDÁ-LO A VIVER MELHOR, SEM SOFRIMENTOS EMOCIONAIS, AFETIVOS OU MENTAIS. NESTE BLOG, HÁ DIVERSOS ARTIGOS SOBRE A PSICOTERAPIA - PARA QUE SERVE E POR QUE TODOS DEVERIAM FAZÊ-LA. NESSES ARTIGOS, VOCÊ VAI LER SOBRE A PSICOLOGIA DO COTIDIANO DE NOSSAS VIDAS.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

PSICOTERAPIA DE PACIENTES DA TERCEIRA IDADE

Será que a psicoterapia de pacientes da terceira idade tem bom efeito? Alguns pensam que não e até justificam dizendo que de nada adianta trabalhar conflitos internos e lutas emocionais quando as vidas dessas pessoas estão próximas do fim ou porque são, na velhice, pessoas cognitivamente comprometidas. Mas isso é um péssimo engano, penso que com algum conteúdo preconceituoso, inclusive.

A sociabilidade é outro tema abordado na psicoterapia tendo-se em vista que o idoso normal não busca a solidão nem quer se isolar – engana-se quem assim pensa! Ele é posto nessa condição por algum motivo como as limitações físicas ou a diminuição do número de amigos que deixam o mundo dos vivos ou, para muitos, a dificuldade pessoal para estabelecer novos relacionamentos.


Sabemos que não viveremos para sempre e que, se nada interromper subitamente as nossas vidas, chegaremos à velhice, “aquela fase” em que a maior parte das pessoas diminuem consideravelmente suas participações na sociedade. A expectativa da morte é universal e a perda de algumas habilidades e capacidades não é improvável. É um período em que há uma clara redução das atividades profissionais, desinteresse em novas atividades, muita introspecção e recolhimento quanto às relações sociais. A vida é finita e as pessoas não conseguem ficar no topo das evidências até o fim, mas não há por que a terceira idade ter um caráter negativo ou não-construtivo. Mesmo com redução de algumas capacidades, o idoso pode dedicar-se a aspectos de suas personalidades, à sociabilidade, inteligência e outros, e se sentirem muito bem com isso, aproveitando, inclusive, o fato de estarem mais livres de algumas obrigações. Podem desenvolver mais a compaixão, o contato consigo próprio, dar um novo sentido para a vida e investir mais em si mesmos, mas, nessa etapa da vida também há sofrimento psicológico dado que há longevos que não olham para trás por receio da comparação com a realidade do momento atual em suas vidas. São pessoas que não aceitam as inevitáveis perdas na qualidade de suas saúdes, ou mesmo não são capazes de aceitarem o envelhecimento e a convivência com suas fragilidades ou com o rompimento dos laços, em razão de suas novas posições na sociedade e na família. Ademais, a perda dos cônjuges são causas de muito sofrimento, tristeza e, às vezes, depressão (muito perigoso nesse estágio da vida já que pode causar o agravamento de doenças físicas). Transtornos mentais diversos podem ser exacerbados com a idade, frutos de solidão, diminuição da autoestima, perda de identidade, etc.


Consciente desse cenário, há muitos anos dedico-me ao estudo da psicologia do idoso, “abrindo” ao atendimento psicológico de pessoas da terceira idade com mais frequência. Passei a fomentar a psicoterapia para cada um dos parentes idosos dos amigos e conhecidos a fim de que possa, com ajuda profissional, fazer um balanço da vida, reconhecer suas passagens e experiências, perdoar a quem deve ser perdoado, aplainar as raivas, rever a vida e conscientizar-se do sentido que teve e ainda tem, e com isso, alcançar a sensação de realização e plenitude. A psicoterapia serve igualmente a boa aceitação do parcial distanciamento da vida social e das mudanças de papeis; de mais a mais, existem perdas a serem elaboradas e que farão a pessoa idosa a não se recriminar nem sofrer inutilmente.


Esclareço aos que são contrários à psicoterapia para idosos que muitos deles deixaram de viver prazerosamente suas vidas e que é importante inverter essa condição. Digo, também, que uma pessoa com a idade avançada vive um momento ideal para desfrutar de sua liberdade das prisões emocionais que viveu ao longo da vida. Há pacientes que dizem: “quero fazer psicoterapia e o motivo é simples: tudo o que me resta é o meu futuro!!!!” Que maravilha isso, não é? Em segundo lugar, costumo comentar sobre uma paciente de 75 anos de idade que sempre estava envolvida em discussões acaloradas com vizinhos e que fazia uso de álcool e que, com a terapia, evidenciou-se uma depressão (pelo não reconhecimento dos seus feitos em vida) e problemas de memória e afasia grave (dificuldade em expressar-se com a linguagem). Seu desejo de se comunicar era intenso e isso era o que lhe permitiu ficar conectada a outros. Trabalhamos, na terapia, o alívio dos sentimentos depressivos e irritadiços, até o dia em que ela disse numa sessão que “sintia-se aliviada e chorava de felicidade”. E acrescentou: “Se eu lhe disser o que está acontecendo de mim agora, teriamos que conversar um mês inteiro sem parar! Eu tinha me esquecido de mim, mas me encontrei e vejo coisas boas em mim agora.... agora eu sei que estava com raiva e vejo que não preciso estar com raiva de todo mundo. Eu não estou muito orgulhosa do que fui, mas gosto de ficar sozinha comigo agora!”. Como poderia um terapeuta não se encantar com a capacidade humana que foi co-existente com os problemas típicos e assustadoras da sua idade? Falo sempre do caso de um senhor de quase 80 anos com queixa inicial de intransigência, mal humor e alguma agressividade, e que passou a me dizer, sempre com excelente humor, que na terapia ele entra em pensamentos profundos e que isso alivia as tensões, emoções e experiências vividas nos demais dias da semana, pois passa a compreendê-las melhor.


Vários temas devem ser abordados na psicoterapia de um paciente da terceira idade. Um deles é a sua identidade, frequentemente sustentada por sua condição corporal - sou o que é o meu corpo. Lembro que não existe só o corpo físico, deve-se considerar, igualmente, o corpo imaginário com o qual a pessoa forma sua identidade e dá vazão às suas comunicações simbólicas. Quando o corpo físico muda, há um choque com o corpo imaginário, comprometendo a identidade da pessoa, e, ao invés de adiar ou negar esse ajuste como faz a maioria, na psicoterapia realiza-se esse ajuste e busca-se o equilíbrio necessário para a expressão reveladora da relação do indivíduo consigo mesmo.


A condição econômico-financeira é fundamental para a estabilidade emocional e psicológica do idoso que precisa ter uma renda própria para garantir qualidade de vida numa sociedade onde pessoas são avaliadas pelo que possuem. Qualquer pessoa numa idade avançada não quer depender de ninguém; pelo contrário, quer ter autonomia e manter a liberdade conquistada em sua vida. Imagine os conflitos de uma pessoa que na velhice não tem as condições adequadas para assegurar uma boa qualidade de vida... Ou mesmo daquele que não consegue se aposentar e fica antecipadamente condenado por não ter feito nada: quem não assegura uma aposentadoria digna é visto como um fracassado e se não se aposentar, carregará o estigma de não ter dinheiro, sendo visto pelos demais – inclusive a família! – como um incapaz, um derrotado, um pária.


Freud afirmou que a sexualidade é o mais forte dos impulsos e deu-lhe o nome de libido. Acredita-se que uma pessoa idosa tem a libido diminuída ou nula, chegando-se até a proibir ou discriminar aquele que queira manifestar a sua sexualidade – velho nojento, imoral, etc. Mas o fato é que os desejos sexuais não diminuem com a idade, então, o idoso que estiver bem fisicamente (com o uso de medicamentos ou não) e com desejo de viver plenamente a sua sexualidade, sofrerá censura e será condenado pela sociedade, sendo obrigado a esconder de todos, e até de si mesmo, esse impulso maravilhoso.


O tema “morte” é clássico nessa psicoterapia, sendo obrigatório estimular a reflexão a respeito dela visto que se era algo que parecia distante, na velhice sente-se cada vez mais perto, envolvendo medos, arrependimentos, culpas, vontade de corrigir coisas, etc. O idoso deve ser ajudado a encarar a senilidade apenas como mais uma etapa da vida que pode e deve ser vivida de forma plena. A finitude, por sua vez, além de ser uma nota essencial da vida humana, possibilita o entendimento do caráter da existência. Não se escapa da aceitação da responsabilidade pela vida quando nos referimos à temporalidade, à vida que só vive uma única vez. Talvez o sentido último da psicoterapia de pessoas da terceira idade seja fazer com que esses pacientes experimentem e assumam a responsabilidade pelo cumprimento de suas missões pois quanto mais aprendermos o caráter de missão que a vida tem, tanto mais nos parecerá repleta de sentido as nossas vidas.


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Um abraço,

Psicólogo Paulo Cesar

Psicoterapeuta de adolescentes, adultos, casais e gestantes. Psicólogo de linha humanista com acentuada orientação junguiana e budista. Consultório próximo ao Shopping Metrô Santa Cruz. Atendimento de segunda-feira aos sábados. Marque uma consulta pelos fones 11.5081-6202 e 94111-3637 ou pelos links www.psicologopaulocesar.com.br ou www.blogdopsicologo.com.br  

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