Para os povos arcaicos, o mito não era metáfora. Era verdade
absoluta. Narrava acontecimentos sagrados ocorridos no “tempo dos começos” e,
por isso, servia como modelo exemplar para todos os atos humanos. Comer, amar,
construir, guerrear, governar: tudo só ganhava pleno sentido quando repetia um
gesto inaugural de um Deus ou Herói. Ao imitar esse gesto primordial, o ser
humano se desligava do desgaste do tempo comum e entrava no Grande Tempo, o
tempo sagrado sempre renovado.
O mito, portanto, não era uma história sobre o mundo; era
uma maneira de habitar o mundo.
Sagrado e profano: a ruptura moderna
Do ponto de vista social, certos símbolos coletivos
continuam operando como focos de pertencimento e identidade. Contudo, no plano
íntimo ocorreu uma fratura decisiva: o homem contemporâneo passou a pensar-se
como indivíduo separado, autocentrado, enquanto o homem arcaico se compreendia
sobretudo como participante de um drama cósmico maior do que ele.
Essa mudança teve consequências profundas. Aquilo que antes
era vivido como participação num ritmo sagrado passou a ser experimentado como
sucessão linear e cansativa de horas, dias e anos. O tempo tornou-se algo que
se “mata”, não algo que se celebra.
Nas culturas tradicionais, o trabalho era rito. Plantar,
caçar, tecer ou edificar significava colaborar com a ordem do cosmos. Por
repetir o gesto divino inaugural, o trabalho inseria o homem num tempo pleno,
não havia tédio nem a sensação de prisão.
Quando o trabalho perde esse caráter simbólico,
transforma-se em obrigação nua. O homem moderno sente-se aprisionado pela
profissão porque ela já não o conduz para fora do tempo desgastante. Incapaz de
reencontrar no fazer cotidiano uma abertura para o sagrado, ele busca saídas
laterais.
É aí que surgem as distrações.
Distração como tentativa de fuga do tempo
Livros, novelas, jogos e filmes oferecem um deslocamento
para outros ritmos temporais. Ao mergulhar numa narrativa, a pessoa suspende
por instantes o relógio biográfico e vive num tempo diferente do seu. Essa
experiência revela algo importante: o desejo persistente de escapar da corrosão
do tempo linear.
Nas sociedades antigas, quase não havia “distrações” porque
não eram necessárias. O próprio viver já era atravessado por uma dimensão
ritual que renovava o mundo a cada gesto responsável. Hoje, a fuga é
compensatória. Ela alivia, mas não transforma.
O mito antigo elevava o cotidiano ao nível do cosmos. A
distração moderna apenas anestesia o peso do cotidiano.
Ainda assim, essa fuga não é vazia. Ela mostra que o impulso
mítico continua vivo.
O mito nunca desapareceu
Mesmo quando expulso do centro da vida social, o mito
persiste na experiência interior. Ele reaparece nos sonhos, nas fantasias, nas
nostalgias sem nome. Esse retorno não é acidental: o comportamento mítico é
inseparável da condição humana porque expressa nossa angústia diante do tempo
que passa e da morte que se aproxima.
Redescobrir o mito não significa abandonar a razão, mas
reconhecer que há em nós uma dimensão que busca sentido por meio de narrativas
exemplares, imagens fundadoras e jornadas simbólicas.
Esse reencontro pode inaugurar um novo humanismo, capaz de
atravessar culturas.
O tesouro escondido em casa
A antiga história do rabino Eisik, de Cracóvia, ilustra de
forma luminosa essa busca. Sonhando três vezes com um tesouro escondido sob uma
ponte em Praga, ele empreende longa viagem. Vigiado por guardas, não consegue
cavar. Ao contar seu sonho ao capitão, ouve dele uma gargalhada: o próprio
capitão também sonhara com um tesouro em Cracóvia, atrás do fogão de um rabino
chamado Eisik, mas considerara isso absurdo demais para levar a sério.
O rabino volta para casa, cava atrás do fogão e encontra o
tesouro.
A lição é dupla. O que nos salva está perto, enterrado no
centro vivo do nosso ser. Mas muitas vezes só descobrimos isso depois de uma
longa viagem exterior. E, curiosamente, quem nos revela o sentido da jornada é
o estrangeiro: o outro, o diferente, aquele que não pertence à nossa crença nem
à nossa cultura.
O encontro com o distante devolve-nos ao mais íntimo.
Essa é a dinâmica profunda de toda verdade reencontrada.
Mito e psicologia profunda
O “atrás do fogão” é imagem do centro que aquece e sustenta
a vida: o coração do coração. Psicologicamente, trata-se da interioridade
esquecida. O mito opera como mapa simbólico dessa escavação. Ele orienta a
travessia para dentro ao mesmo tempo em que exige deslocamentos para fora.
A viagem e o retorno, o estrangeiro e a casa, o longe e o
íntimo formam um único movimento de autoconhecimento.
Daí a atualidade do mito: ele oferece uma linguagem para
aquilo que a racionalidade pura não alcança, sem por isso negar a lucidez.
O cinema como ritual imperfeito
O mundo contemporâneo criou novos palcos para essa
experiência de suspensão do tempo. A sala escura do cinema funciona como um
limiar: por algumas horas, o tempo cotidiano é substituído pelo tempo da
narrativa. Séculos passam em minutos, segundos se expandem em eternidades.
Vivida muitas vezes em grupo, essa imersão coletiva lembra o recolhimento
ritual dos antigos iniciados.
Os grandes heróis das telas cumprem papel semelhante ao dos
heróis míticos: encarnam justiça, sacrifício, poder, redenção. Histórias de
origem funcionam como cosmogonias modernas, explicando “como tudo começou”. A
ficção científica e a fantasia, ao explorar multiversos e viagens no tempo,
tocam diretamente na velha aspiração humana de não ficar presa a uma única
linha temporal.
Há, porém, uma diferença decisiva.
No mito vivido como rito, a narrativa retornava ao cotidiano
e o transformava. O indivíduo sentia-se responsável por manter a ordem do
mundo. No cinema e nas séries, a experiência costuma terminar com os créditos
finais. O espectador volta para a mesma rotina dessacralizada. O alívio é real,
mas provisório.
O mito antigo integrava. O mito consumido distrai.
Para além da fuga: um novo humanismo
Compreender o mito é uma das grandes conquistas do
pensamento moderno porque nos devolve algo que nunca perdemos totalmente: a
capacidade de encontrar, no interior da própria vida, fontes de sentido que
atravessam épocas e culturas.
Não se trata de restaurar o passado, mas de reativar em nós
as fontes espirituais que deram origem às grandes criações humanas. O mito
mostra que, apesar das diferenças históricas, todos partilhamos a mesma
angústia diante do tempo e o mesmo desejo de um centro que aqueça a existência.
Quando reconhecemos o que ainda é mítico em nossa vida — nos
sonhos, nas buscas, nas jornadas que fazemos para depois voltar para casa —
abrimos espaço para um humanismo verdadeiramente amplo: não baseado apenas em
conquistas técnicas, mas na experiência comum de procurar, perder-se, viajar e
finalmente escavar, em silêncio, o tesouro escondido em nosso próprio chão.
Um abraço,
Paulo Cesar T. Ribeiro
- Psicoterapeuta de adolescentes, adultos e gestantes e Psicólogo Orientador Parental
- Escritor.
- Contatos: www.psipaulocesar.psc.br











