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Daqui em diante, você encontrará muitos outros artigos sobre psicologia. A finalidade da Psicoterapia é entender o que está ocorrendo com o cliente, para ajudá-lo a viver melhor, sem sofrimentos emocionais, afetivos ou mentais. Aqui você encontrará respostas sobre a PSICOTERAPIA - para que serve e por que todos deveriam fazê-la. Enfim, você encontrará nesses artigos,informações sobre A PSICOLOGIA DO COTIDIANO DE NOSSAS VIDAS.

O QUE AS MULHERES ESPERAM (E O QUE NÃO ACEITAM MAIS)

Esse é o capítulo 11 do livro O SILÊNCIO DOS HOMENS - Uma Jornada de presença e sentido na vida moderna


Eu já me peguei pensando que as mulheres “mudaram demais”. E, em alguns momentos, essa frase vinha com irritação - como se a mudança delas fosse um incômodo pessoal para mim. Mas quando eu respiro e olho com mais honestidade, eu percebo que não é bem isso.

O que mudou não foram apenas as mulheres. O que mudou foi o mundo. E eu ainda estou aprendendo a caber nele por dentro.

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Foi aí que eu entendi: ser ‘bom de cama’ pode ser só uma forma sofisticada de continuar ausente. O que muitos homens estão vivendo hoje não é apenas uma crise individual. É uma travessia histórica dentro do vínculo. Um deslocamento de acordos antigos para acordos novos. E, quando acordos mudam, o homem que foi educado para um roteiro se vê diante de outro. Não porque alguém “inventou exigências”, mas porque a vida íntima passou a pedir o que antes era evitável: presença real.

Durante muito tempo, muitas relações se sustentaram por uma divisão desigual - nem sempre consciente, mas profundamente repetida. O homem cuidava do mundo externo: trabalho, dinheiro, decisões finais. A mulher cuidava do mundo interno: casa, filhos, rotina invisível, clima emocional, cuidado dos detalhes, manutenção do vínculo. Esse modelo já continha falhas e injustiças, mas era “o normal”. Era o que se herdava. Era o que se repetia.

Uma parte das mulheres tolerou esse arranjo por falta de opção concreta. Dependência financeira, medo social, educação para servir, ausência de rede, culpa, insegurança - tudo isso sustentava o que não era bom, mas era o possível. Só que o tempo mudou o terreno. As mulheres ganharam autonomia, renda, informação, consciência de padrões abusivos e negligências afetivas. Muitas perceberam que certas dores não eram “drama”; eram desgaste. Certas ausências não eram “jeito”; eram abandono. Certas agressividades não eram “temperamento”; eram violência emocional.

Quando esse olhar muda, não dá para “desver”. E é aí que a relação entra numa nova etapa. O novo acordo do vínculo não é uma guerra contra os homens. É uma exigência de parceria real. Uma relação que não seja sustentada por um único lado - nem no trabalho, nem na casa, nem no emocional. O que está em jogo não é perfeição, nem romantização, nem sensibilidade performática. O que está em jogo é maturidade.

E maturidade, aqui, significa algo simples e difícil: participar.

Participar da vida real.
Participar das tarefas.
Participar das decisões.
Participar do cuidado.
Participar do vínculo.
Participar das conversas difíceis.
Participar dos efeitos do próprio comportamento.
Participar do próprio amadurecimento.

Isso pressiona muitos homens porque desmonta uma ilusão silenciosa: a de que estar presente fisicamente basta. Antes, em muitos contextos, bastava prover e não “dar problema”. Bastava cumprir o papel. Hoje, cada vez mais, pede-se outra coisa: vínculo. E vínculo não se sustenta apenas com presença física e eficiência. Vínculo exige presença emocional - aquela presença que escuta, considera, repara e se implica.

É importante dizer com tato: a maioria das mulheres não espera um homem perfeito, disponível vinte e quatro horas por dia, sempre calmo, sempre disposto, sempre iluminado. Isso é fantasia - e fantasia não sustenta casamento.

O que elas esperam é um homem adulto. E adulto não é o homem que nunca erra. É o homem que não desaparece quando erra. É o homem que aprende. Que reconhece. Que repara. Que não faz do vínculo uma arena de vitória.

Um ponto central desse novo cenário é a chamada carga mental. Esse termo descreve o trabalho invisível de lembrar de tudo, organizar tudo, prever tudo, cuidar do clima emocional de todos. Muitas mulheres viveram como gerentes da casa e terapeutas informais da família ao mesmo tempo. E isso não cansa apenas o corpo. Cansa a alma. Esse tipo de exaustão mata o desejo. Mata a ternura. Mata o prazer. Não por falta de amor - mas por excesso de função.

É por isso que muitas mulheres não aceitam mais ser “mãe” do próprio parceiro. Não aceitam mais pedir o básico como se estivessem pedindo demais. Não aceitam mais ter que ensinar o óbvio, lembrar o que é repetido, sustentar sozinha aquilo que deveria ser compartilhado. O que elas desejam é que o homem saia do lugar de “ajudante” e entre no lugar de “responsável junto”.

Ajudar é eventual. Responsabilizar-se é estrutural.
Ajudar é “me diz o que fazer”.
Responsabilizar-se é perceber e fazer antes que vire pedido.

Para muitos homens, isso é uma revolução interna. Porque mexe com a educação recebida: não foram preparados para ser parceiros de casa - foram preparados para ser provedores que “colaboram quando dá”. A vida contemporânea, porém, pede um homem que vive junto. E viver junto exige mais do que estar. Exige dividir realidade.

Além disso, existe uma expectativa cada vez mais forte de higiene emocional no vínculo. Não é poesia. É civilidade afetiva. O básico que sustenta convivência:

Escutar sem atacar. Conversar sem sumir.
Reconhecer impacto sem se defender o tempo todo. Pedir desculpas quando erra.
Reparar sem cinismo.
Sustentar conflito sem transformar tudo em ameaça.

Muitas mulheres não aceitam mais um homem emocionalmente ausente. E isso não é “exigência exagerada”. É consequência de consciência. Viver com alguém que não conversa, não se implica, não repara e não participa emocionalmente é viver uma solidão dentro da própria casa. E solidão acompanhada é um dos piores tipos de solidão.

O que não é mais tolerado, em muitos contextos, é o velho pacote do roteiro masculino tradicional: grosseria normalizada, ironia como arma, agressividade como “temperamento”, silêncio como castigo, controle como cuidado, ciúme como amor, ausência afetiva como “meu jeito”, falta de conversa como “sou assim”, infidelidade como “coisa de homem”, desresponsabilização como “eu não sei”. Esse pacote está perdendo permissão social porque ele machuca - não apenas a mulher, mas os filhos e o próprio homem.

E aqui entra um ponto delicado, mas necessário: quando um homem não amadurece, ele não permanece igual. Ele endurece. Ele apodrece por dentro. Ele vira um adulto funcional e um menino afetivo. Sustenta o mundo, mas não sustenta vínculo. E, com o tempo, perde a própria casa interna. O vazio aumenta, a ansiedade aumenta, a irritação aumenta - e ele não entende por quê.

O novo vínculo pressiona porque exige uma habilidade pouco praticada na cultura masculina tradicional: estar em relação de verdade. Estar em relação significa reconhecer o outro como sujeito - e não como extensão do próprio conforto. Significa tolerar frustração sem retaliar. Sustentar conversa difícil sem fugir. Admitir limites sem se sentir humilhado. Reconhecer erro sem transformar isso em ataque à dignidade. Crescer. E crescer dói.

Há homens que respondem bem a esse chamado. E, quando respondem, algo importante acontece: eles não perdem masculinidade - eles ganham humanidade. Tornam-se mais confiáveis, mais presentes, mais parceiros, mais desejáveis. Saem do lugar de homens que oferecem estrutura e entram no lugar de homens que oferecem vínculo. E vínculo sustenta mais do que dinheiro e eficiência.

Mas há homens que respondem mal. E, quando respondem mal, entram em ressentimento. Acham que nada basta, que o mundo está contra eles, que as mulheres “querem mandar”, que estão sendo “humilhados”. Procuram explicações fáceis - narrativas que transformam insegurança em inimigo. Isso é perigoso porque transforma uma crise interna em guerra externa. O homem não suporta a própria fragilidade e tenta resolver isso atacando a mudança. Só que a mudança não volta. E mesmo que voltasse, o vazio continuaria. Porque o vazio não nasce das mulheres. Nasce da ausência de presença e de sentido.

E aqui cabe uma diferenciação importante: muitas mulheres não querem um homem “desconstruído” como performance. Não querem discurso bonito com ausência prática. Não querem alguém que fala de igualdade e trata a vida doméstica como favor. Não querem uma sensibilidade teatral que desaba diante do mínimo conflito.

O que elas querem é consistência. Coluna. Responsabilidade. Coerência.
Um homem capaz de participar sem se vitimizar, de reparar sem ironia, de amar sem transformar o amor em prova.

Esse novo cenário redefine o homem por dentro porque faz surgir perguntas que antes ele podia evitar: quem ele é quando não está apenas cumprindo função? Quem ele é no amor? Na intimidade? Quando ninguém aplaude? Quando não há meta - apenas convivência? Quando a vida pede presença e não desempenho?

Essas perguntas assustam - e também libertam. Porque tiram o homem do lugar de “máquina de resolver” e o coloca no lugar de homem que vive. E viver é mais difícil do que resolver. Viver exige sentir, conversar, reparar, sustentar frustrações e construir sentido. Mas viver também devolve algo que o homem funcional perdeu: sabor.

No fim, o que muitas mulheres esperam não é que o homem vire outra coisa. É que ele pare de se esconder atrás do que sempre funcionou e aprenda o que sempre faltou. Não porque elas queiram moldar o homem à força, mas porque não querem adoecer ao lado de alguém que se recusa a amadurecer.

E talvez a parte mais importante seja esta: esse amadurecimento não é um favor para as mulheres.
É um resgate do próprio homem.

Porque quando ele aprende a ser parceiro de verdade, ele também se sente menos sozinho. Ele também descansa mais. Ele também vive com mais sentido. Ele também encontra mais prazer. Ele também habita mais o amor. E, sim: ele diminui o próprio vazio - O novo contrato afetivo não é punição ao masculino. É um chamado à maturidade.

Insight
  • O que mudou não foi “a mulher”. Foi o mundo - e o vínculo junto.
  • Presença não é um gesto ocasional. É um modo de existir dentro da relação.
Ressonâncias
  • Você tem oferecido amor como presença… ou como desempenho?
  • Você se sente cobrado porque a parceira quer demais - ou por que você nunca aprendeu a participar por inteiro?
  • Em que ponto “ser forte” virou “ser inacessível”?
  • Quando você erra, você repara… ou se defende?
  • O que, no seu vínculo, já virou logística e está pedindo humanidade?
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O livro impresso está disponível na UICLAP ( https://loja.uiclap.com/titulo/ua147067 ) e no CLUBE DE AUTORES ( https://clubedeautores.com.br/livro/o-silencio-dos-homens ).
Disponível em Ebook no KINDLE ( https://www.amazon.com.br/dp/B0GJN58P9D )


Paulo Cesar T. Ribeiro
Psicoterapeuta de adolescentes, adultos e gestantes – Presencial e Online.
Psicólogo Orientador Parental
Escritor.
Contatos: paulocesar@psicologopaulocesar.com.br 

QUANDO A EREÇÃO CAI NO MEIO DO ENCONTRO

 Modo desempenho, tempo sexual e o que o corpo masculino está tentando dizer

(um texto para compreender sem humilhar, orientar sem medicalizar demais e cuidar sem pressa)

 

Há um tipo de sofrimento sexual masculino que quase nunca é descrito com serenidade - e,justamente por isso, costuma ser vivido em silêncio. O homem tem ereção, inicia a relação, o encontro acontece por alguns minutos e, de repente, o pênis amolece. Às vezes isso ocorre após dez ou quinze minutos, às vezes antes e, às vezes em meio a um momento de prazer. Ele se assusta, tenta “recuperar”, não consegue, encerra a relação e se recolhe. A parceira pode interpretar como desinteresse ou rejeição. Ele pode interpretar como fracasso, humilhação, perda de valor. O clima muda. O quarto, que era encontro, vira prova.

Esse fenômeno é muito mais comum do que se imagina e quase nunca tem uma única causa. Reduzi-lo simplesmente a “disfunção erétil” empobrece a compreensão. Em muitos casos, o que falha não é o pênis. O que colapsa é um estado interno de segurança. E quando isso acontece, o corpo responde com precisão. Ele não está traindo o homem. Está comunicando algo.

Antes de qualquer leitura moral ou relacional, é importante lembrar uma verdade básica: a ereção não é apenas um evento genital. Ela é uma função do organismo inteiro. Depende de circulação adequada, equilíbrio hormonal, ausência de fadiga extrema e boa condição metabólica, sim - mas depende sobretudo de um sistema nervoso que se sinta suficientemente seguro para permanecer em estado de excitação. A ereção é um fenômeno do corpo em modo de entrega. E entrega não se sustenta quando o organismo entra em modo de ameaça.

Por isso, quando a ereção cai no meio da relação, frequentemente está ocorrendo uma ativação do sistema de alerta do corpo. Às vezes de forma intensa, às vezes quase imperceptível, mas suficiente para alterar a fisiologia. Um pensamento automático surge como reflexo:

“Será que vou conseguir até o fim?”
“Estou demorando demais?”
“Ela está gostando?”
“E se acontecer de novo?”.

Esse microsegundo de dúvida já pode disparar ansiedade. A ansiedade mobiliza adrenalina. A adrenalina contrai vasos sanguíneos periféricos, aumenta a tensão muscular, altera a respiração e desloca o organismo para um estado de controle. O resultado pode ser imediato: o fluxo sanguíneo peniano diminui e a ereção cai.

Esse ponto é crucial: muitas vezes não é falta de desejo. É excesso de vigilância.

Em outros casos, o corpo já chega cansado ao encontro. O homem até inicia bem, mas vive sob estresse crônico, dorme mal, carrega sobrecarga mental ou preocupações profissionais e financeiras. O organismo liga, mas funciona no limite, como um motor sem reserva.

Há ainda situações em que fatores orgânicos participam com mais peso: oscilações hormonais, especialmente da testosterona, alterações vasculares iniciais, resistência insulínica, sedentarismo, uso de álcool, tabagismo ou efeitos colaterais de antidepressivos e outras medicações.

Muitas vezes isso aparece em fase subclínica: não há uma doença instalada, mas existe um terreno corporal menos favorável. Por isso, uma boa avaliação médica pode ser importante, sobretudo quando o quadro é persistente, progressivo ou acompanhado de outros sinais, como queda de libido, cansaço extremo ou alterações de humor.

Ainda assim, na prática clínica psicoterápica, o cenário mais frequente é outro. O homem começa bem, o encontro avança e, em algum ponto, ele entra no que chamamos de modo desempenho. Esse nome não é acusação; é descrição. Modo desempenho é quando a sexualidade deixa de ser experiência e passa a ser avaliação. Ele não está apenas no corpo - começa a se observar por dentro, como se houvesse uma câmera interna julgando cada movimento. O foco, que deveria estar na sensação, migra para o resultado. Ele sai do encontro e entra numa prova silenciosa.

Nessa passagem, algo essencial se perde: a espontaneidade. A ereção, que é resposta de entrega, não se sustenta quando o sujeito se coloca sob vigilância. E essa vigilância não precisa ser explícita para ser devastadora. Basta uma pergunta interna, um medo antigo, uma memória de falha, uma comparação, um “será que…”, para o corpo sair do modo excitação e entrar no modo controle. Vale dizer que a excitação pede presença e, por outro lado, o desempenho pede comando. São estados que raramente convivem bem no mesmo organismo.

Por trás desse modo de funcionar quase sempre há uma história. Muitos homens foram educados a entender sexo como prova de masculinidade. Aprenderam cedo, pela cultura, por piadas, por conversas entre amigos, pela pornografia ou por experiências anteriores, que “homem de verdade” está sempre pronto, tem ereção rápida, mantém por tempo suficiente, conduz a cena, satisfaz a parceira e não falha. Pouco se ensina sobre intimidade, ritmo, vulnerabilidade, afeto ou comunicação. Ensina-se resultado, mas quando o encontro vira resultado, o corpo reage como quem está sendo examinado.

Isso ajuda a compreender um fator frequentemente negligenciado: o impacto do ambiente social masculino. Um homem que escuta repetidamente amigos relatarem experiências sexuais como conquista, quantidade e performance, muitas vezes desvinculadas de afeto, acaba introjetando um roteiro silencioso do que o sexo deveria ser. Surge a comparação: “Com eles é fácil. Comigo não.” Se esse homem tem uma sexualidade mais relacional, se precisa de vínculo e presença emocional para se excitar, pode começar a desconfiar do próprio modo de desejar, como se houvesse algo errado nele. Instala-se um tribunal interno. O sexo, que deveria ser encontro, vira palco. A plateia imaginária entra no quarto. E a ereção, que pede privacidade psíquica, sente o peso da exposição.

O campo relacional do casal também participa. Não porque a mulher cause diretamente a perda da ereção, mas porque o corpo masculino é extremamente sensível ao clima emocional do encontro. Tensão silenciosa, ressentimentos acumulados, distanciamento afetivo ou pressão implícita para “funcionar” podem ser suficientes para que o organismo não se sinta seguro para relaxar. Às vezes a parceira, sem intenção, transmite impaciência ou cobrança, ou tenta ajudar de um modo que aumenta o foco no pênis e transforma a cena em monitoramento. Mesmo um suspiro, um olhar distraído ou uma mudança de postura pode ser vivido pelo homem como avaliação, especialmente quando ele já está hipersensível à possibilidade de falhar. Nesses casos, não é o comportamento em si - é o significado que aquilo assume dentro dele.

Há ainda uma vivência delicada: quando o sexo acontece sem reciprocidade emocional, quando um dos dois se sente sozinho no encontro, pode surgir no homem uma sensação de vazio relacional. Não é falta de desejo; é falta de presença compartilhada. O prazer vira tarefa, e tarefa chama desempenho. O desempenho chama vigilância e vigilância derruba a ereção.

Quando o episódio acontece uma única vez, pode ser apenas circunstancial. O problema é o que vem depois. Muitos homens, tomados pela vergonha, encerram a relação rapidamente para preservar a autoestima.

O silêncio se instala.
A mulher se sente rejeitada.
Ele se sente inadequado.
O episódio ganha peso simbólico.

A partir daí, pode surgir o ciclo clássico: episódio, frustração, medo de repetir, mais ansiedade, novo episódio. Em pouco tempo, o problema deixa de ser situacional e passa a ser condicionado. O sistema nervoso aprende e o corpo começa a associar sexo a risco.

Aqui cabe uma reinterpretação importante: o corpo não está falhando. Ele está tentando proteger. Protege do constrangimento, da exposição, da sensação de não ser suficiente. O pênis amolece como uma porta que se fecha quando o ambiente interno deixa de ser seguro.

Nesse ponto, muitas expectativas irreais entram em cena, especialmente sobre tempo. A cultura vende a ideia de que a penetração deveria durar longos períodos, como se sexo fosse prova de resistência. Mas estudos objetivos mostram algo bem diferente. Quando se mede com cronômetro em casais reais, o tempo médio entre o início da penetração e a ejaculação gira em torno de cinco a sete minutos, com a maioria dos homens ficando entre três e dez minutos. Tempos muito prolongados pertencem mais ao imaginário pornográfico do que à fisiologia humana. Quando se considera a relação inteira - carícias, preliminares, penetração e pós-contato - a maioria dos casais permanece entre quinze e trinta minutos.

Esses números só fazem sentido quando compreendemos algo fundamental: sexo não é maratona mecânica. O corpo masculino funciona em ciclos de excitação, pico e resolução. Quando o homem tenta sustentar ereção muito além do seu ritmo natural, especialmente sob pressão, ele entra ainda mais profundamente no modo desempenho. A consequência costuma ser exatamente o oposto do esperado: queda de ereção, perda de sensibilidade, dificuldade de ejacular, ansiedade e desconexão do prazer.

A ereção não tem um tempo padrão fixo. Ela dura enquanto houver excitação, enquanto o sistema nervoso estiver em modo segurança e enquanto o homem estiver presente no corpo. Pode oscilar durante o encontro. Não foi feita para ser um objeto rígido contínuo. Ela responde ao clima emocional.

Por isso, o parâmetro saudável não é duração. É qualidade de presença. Muitos encontros profundamente satisfatórios acontecem com poucos minutos de penetração. E muitos encontros longos são vazios, tensos ou performáticos. Clinicamente, não perguntamos apenas quanto tempo durou. Perguntamos se houve conexão, prazer compartilhado, segurança e espontaneidade. Isso diz muito mais sobre saúde sexual do que qualquer relógio.

O que fazer, então? Em primeiro lugar, abandonar o moralismo e o reducionismo. Em alguns casos, será necessário investigar fatores orgânicos, revisar medicações, avaliar saúde metabólica e vascular, considerar exames hormonais e observar hábitos de vida. Cuidar do corpo amplia segurança. Mas, na maioria das histórias, o núcleo do tratamento é psicológico e relacional, porque o que está em jogo não é apenas funcionar - é sentir-se seguro para existir dentro do encontro.

Na psicoterapia, trabalhamos para retirar o sexo do modo prova, desmontar crenças de performance, reduzir a autovigilância e reconstruir confiança corporal. Isso inclui aprender a reconhecer o instante em que o homem sai do corpo e vai para a cabeça e desenvolver caminhos concretos de retorno ao presente: respiração, atenção às sensações, contato com o próprio prazer sem meta, diminuição da pressa, autorização para pausas sem catástrofe.

Quando o casal participa, o trabalho se aprofunda: melhora-se a comunicação, esclarecem-se expectativas, desmonta-se a lógica da cobrança e reaprende-se a tocar sem monitorar, a convidar sem exigir, a acolher sem invadir. A intimidade deixa de ser obrigação e volta a ser possibilidade humana.

Há uma frase simples que costuma organizar tudo: a ereção não nasce da cobrança - nasce da presença. Presença é o oposto de vigilância. Presença é corpo habitado. Presença é encontro sem tribunal. Presença é o direito de ser imperfeito e ainda assim desejável.

Talvez a síntese mais importante seja esta: quando um homem perde a ereção no meio da relação, o fato em si pode ser fisiológico, mas o sofrimento ao redor é quase sempre existencial. Toca identidade, valor pessoal, medo de ser insuficiente, temor de decepcionar, vergonha de precisar de cuidado. E justamente por isso a saída não é forçar desempenho nem evitar sexo por medo. A saída é devolver segurança ao sistema nervoso, devolver humanidade ao encontro e devolver espaço para que o corpo responda no tempo dele.

Porque, quando o sexo deixa de ser prova e volta a ser vínculo, quando a pressão cai e a presença cresce, o corpo costuma fazer o que sabe fazer desde sempre: responder. E se não responder de imediato, isso não é sentença. É caminho. Um convite à escuta, à revisão de crenças e ao cuidado real - aquele cuidado que não apressa a cura, mas cria as condições para que ela aconteça.

Um abraço,

Paulo Cesar T. Ribeiro

  • Psicoterapeuta de adolescentes, adultos e gestantes – Presencial e Online.
  • Psicólogo Orientador Parental
  • Escritor.
  • Contatos: www.psipaulocesar.psc.br

O DESPERTAR DO MITO: DA FÁBULA AO FUNDAMENTO DA EXISTENCIA

Durante muito tempo, especialmente até o século XIX, o pensamento ocidental tratou o mito como o oposto do real: algo fantasioso, ilusório, quase infantil. O século XX, porém, promoveu uma virada decisiva. A partir de estudos como os de Mircea Eliade, o mito deixou de ser visto como invenção ingênua e passou a ser reconhecido como a própria base de sentido das sociedades tradicionais.

Para os povos arcaicos, o mito não era metáfora. Era verdade absoluta. Narrava acontecimentos sagrados ocorridos no “tempo dos começos” e, por isso, servia como modelo exemplar para todos os atos humanos. Comer, amar, construir, guerrear, governar: tudo só ganhava pleno sentido quando repetia um gesto inaugural de um Deus ou Herói. Ao imitar esse gesto primordial, o ser humano se desligava do desgaste do tempo comum e entrava no Grande Tempo, o tempo sagrado sempre renovado.

O mito, portanto, não era uma história sobre o mundo; era uma maneira de habitar o mundo.

Sagrado e profano: a ruptura moderna

Do ponto de vista social, certos símbolos coletivos continuam operando como focos de pertencimento e identidade. Contudo, no plano íntimo ocorreu uma fratura decisiva: o homem contemporâneo passou a pensar-se como indivíduo separado, autocentrado, enquanto o homem arcaico se compreendia sobretudo como participante de um drama cósmico maior do que ele.

Essa mudança teve consequências profundas. Aquilo que antes era vivido como participação num ritmo sagrado passou a ser experimentado como sucessão linear e cansativa de horas, dias e anos. O tempo tornou-se algo que se “mata”, não algo que se celebra.

Nas culturas tradicionais, o trabalho era rito. Plantar, caçar, tecer ou edificar significava colaborar com a ordem do cosmos. Por repetir o gesto divino inaugural, o trabalho inseria o homem num tempo pleno, não havia tédio nem a sensação de prisão.

Quando o trabalho perde esse caráter simbólico, transforma-se em obrigação nua. O homem moderno sente-se aprisionado pela profissão porque ela já não o conduz para fora do tempo desgastante. Incapaz de reencontrar no fazer cotidiano uma abertura para o sagrado, ele busca saídas laterais.

É aí que surgem as distrações.

Distração como tentativa de fuga do tempo

Livros, novelas, jogos e filmes oferecem um deslocamento para outros ritmos temporais. Ao mergulhar numa narrativa, a pessoa suspende por instantes o relógio biográfico e vive num tempo diferente do seu. Essa experiência revela algo importante: o desejo persistente de escapar da corrosão do tempo linear.

Nas sociedades antigas, quase não havia “distrações” porque não eram necessárias. O próprio viver já era atravessado por uma dimensão ritual que renovava o mundo a cada gesto responsável. Hoje, a fuga é compensatória. Ela alivia, mas não transforma.

O mito antigo elevava o cotidiano ao nível do cosmos. A distração moderna apenas anestesia o peso do cotidiano.

Ainda assim, essa fuga não é vazia. Ela mostra que o impulso mítico continua vivo.

O mito nunca desapareceu

Mesmo quando expulso do centro da vida social, o mito persiste na experiência interior. Ele reaparece nos sonhos, nas fantasias, nas nostalgias sem nome. Esse retorno não é acidental: o comportamento mítico é inseparável da condição humana porque expressa nossa angústia diante do tempo que passa e da morte que se aproxima.

Redescobrir o mito não significa abandonar a razão, mas reconhecer que há em nós uma dimensão que busca sentido por meio de narrativas exemplares, imagens fundadoras e jornadas simbólicas.

Esse reencontro pode inaugurar um novo humanismo, capaz de atravessar culturas.

O tesouro escondido em casa

A antiga história do rabino Eisik, de Cracóvia, ilustra de forma luminosa essa busca. Sonhando três vezes com um tesouro escondido sob uma ponte em Praga, ele empreende longa viagem. Vigiado por guardas, não consegue cavar. Ao contar seu sonho ao capitão, ouve dele uma gargalhada: o próprio capitão também sonhara com um tesouro em Cracóvia, atrás do fogão de um rabino chamado Eisik, mas considerara isso absurdo demais para levar a sério.

O rabino volta para casa, cava atrás do fogão e encontra o tesouro.

A lição é dupla. O que nos salva está perto, enterrado no centro vivo do nosso ser. Mas muitas vezes só descobrimos isso depois de uma longa viagem exterior. E, curiosamente, quem nos revela o sentido da jornada é o estrangeiro: o outro, o diferente, aquele que não pertence à nossa crença nem à nossa cultura.

O encontro com o distante devolve-nos ao mais íntimo.

Essa é a dinâmica profunda de toda verdade reencontrada.

Mito e psicologia profunda

O “atrás do fogão” é imagem do centro que aquece e sustenta a vida: o coração do coração. Psicologicamente, trata-se da interioridade esquecida. O mito opera como mapa simbólico dessa escavação. Ele orienta a travessia para dentro ao mesmo tempo em que exige deslocamentos para fora.

A viagem e o retorno, o estrangeiro e a casa, o longe e o íntimo formam um único movimento de autoconhecimento.

Daí a atualidade do mito: ele oferece uma linguagem para aquilo que a racionalidade pura não alcança, sem por isso negar a lucidez.

O cinema como ritual imperfeito

O mundo contemporâneo criou novos palcos para essa experiência de suspensão do tempo. A sala escura do cinema funciona como um limiar: por algumas horas, o tempo cotidiano é substituído pelo tempo da narrativa. Séculos passam em minutos, segundos se expandem em eternidades. Vivida muitas vezes em grupo, essa imersão coletiva lembra o recolhimento ritual dos antigos iniciados.

Os grandes heróis das telas cumprem papel semelhante ao dos heróis míticos: encarnam justiça, sacrifício, poder, redenção. Histórias de origem funcionam como cosmogonias modernas, explicando “como tudo começou”. A ficção científica e a fantasia, ao explorar multiversos e viagens no tempo, tocam diretamente na velha aspiração humana de não ficar presa a uma única linha temporal.

Há, porém, uma diferença decisiva.

No mito vivido como rito, a narrativa retornava ao cotidiano e o transformava. O indivíduo sentia-se responsável por manter a ordem do mundo. No cinema e nas séries, a experiência costuma terminar com os créditos finais. O espectador volta para a mesma rotina dessacralizada. O alívio é real, mas provisório.

O mito antigo integrava. O mito consumido distrai.

Para além da fuga: um novo humanismo

Compreender o mito é uma das grandes conquistas do pensamento moderno porque nos devolve algo que nunca perdemos totalmente: a capacidade de encontrar, no interior da própria vida, fontes de sentido que atravessam épocas e culturas.

Não se trata de restaurar o passado, mas de reativar em nós as fontes espirituais que deram origem às grandes criações humanas. O mito mostra que, apesar das diferenças históricas, todos partilhamos a mesma angústia diante do tempo e o mesmo desejo de um centro que aqueça a existência.

Quando reconhecemos o que ainda é mítico em nossa vida — nos sonhos, nas buscas, nas jornadas que fazemos para depois voltar para casa — abrimos espaço para um humanismo verdadeiramente amplo: não baseado apenas em conquistas técnicas, mas na experiência comum de procurar, perder-se, viajar e finalmente escavar, em silêncio, o tesouro escondido em nosso próprio chão.

Um abraço,

Paulo Cesar T. Ribeiro

  • Psicoterapeuta de adolescentes, adultos e gestantes e Psicólogo Orientador Parental
  • Escritor.
  • Contatos: www.psipaulocesar.psc.br

PESSOAS FRIAS E MANIPULADORAS: COMO RECONHECER E SE PROTEGER NO DIA A DIA - SEM PERDER A PAZ

Quando ouvimos a palavra psicopata, muita gente imagina automaticamente uma figura criminosa, violenta, quase cinematográfica. É compreensível: por décadas, filmes, séries e manchetes ajudaram a construir essa imagem de alguém cruel, sádico e fora de qualquer limite. Mas a realidade clínica costuma ser menos barulhenta e, por isso mesmo, mais difícil de reconhecer.

Em muitos casos, a psicopatia e os comportamentos antissociais não aparecem como crimes graves. Eles surgem como frieza emocional, manipulação, ausência de responsabilidade afetiva, jogos de culpa e uma habilidade impressionante de preservar boa aparência social. E é justamente aí que mora um dos maiores desafios: há pessoas que convivem anos com alguém assim — como parceiro, familiar, chefe, colega ou amigo — e só percebem o estrago depois de um longo processo de desgaste interno.

Por isso, o objetivo deste artigo é simples e prático: ajudar você a reconhecer dinâmicas típicas, entender o que pode estar acontecendo e aprender a se proteger sem perder a humanidade. Não se trata de transformar o leitor em “perito” em diagnóstico, nem em alguém que olha o mundo com paranoia. Trata-se de oferecer lucidez para quem sente que algo está errado, mas não consegue nomear o que está vivendo.

Antes de tudo, vale esclarecer uma confusão comum. No cotidiano, os termos psicopatia, sociopatia e comportamento antissocial são usados como sinônimos. Na clínica e na pesquisa, existem diferenças e nuances. Para o público leigo, um bom jeito de compreender é pensar em gradações. O termo “comportamento antissocial, ou, mais oficialmente, Transtorno de Personalidade Antissocial - é a classificação mais comum nos manuais diagnósticos, descrevendo um padrão persistente de violação de regras, irresponsabilidade e pouca ou nenhuma culpa pelos danos causados. A psicopatia, por sua vez, é muito estudada, especialmente em contextos forenses, mas não costuma aparecer como diagnóstico separado em alguns manuais; ainda assim, o conceito permanece importante porque descreve um conjunto de características marcadas por frieza afetiva, charme superficial, manipulação e ausência de empatia emocional autêntica, muitas vezes com uma aparência social organizada e calculada. Já a sociopatia costuma ser entendida como uma configuração mais reativa e impulsiva, com explosões emocionais, instabilidade e dificuldade de se adaptar às normas, podendo, em alguns casos, manter vínculos restritos com pessoas específicas, ainda que de forma limitada. Na prática, o que importa não é “fechar um rótulo”, mas perceber quando a convivência vira um padrão repetitivo de abuso emocional, manipulação e ausência de reciprocidade.

Uma parte central do sofrimento moderno vem do que se descreve como “máscara de sanidade”: pessoas que conseguem circular socialmente com aparência normal, até encantadora, mas que por dentro funcionam com baixa empatia, egocentrismo e uma visão instrumental dos outros. Essas pessoas podem ser o parceiro que se mostra irresistível no início e depois vira um campo minado, o colega “agradável” que faz você sempre sair como culpado, o chefe carismático que parece competente mas destrói a equipe por dentro, ou o parente “bonzinho” que controla tudo com chantagem emocional. E isso explica por que tantas vítimas dizem algo como: “mas ele nunca me bateu…”. Sim, não bateu. Mas esvaziou. Confundiu. Desorganizou. Feriu. Há violências que não deixam hematomas e, ainda assim, fazem a alma sangrar.

E como esses padrões aparecem no dia a dia? Aqui é importante dizer: não existe um “teste caseiro” para diagnosticar alguém. Mas existem sinais relacionais que merecem atenção, sobretudo quando se repetem de maneira consistente. Um deles é o charme acompanhado de pressa emocional: a pessoa acelera a intimidade, promete demais, fala de “destino”, “conexão rara”, cria uma sensação de grande intensidade e prende você rapidamente. Outro sinal comum é a manipulação sutil: ela não pede, ela conduz. E quando você percebe, já está cedendo por culpa, medo ou confusão. Muitas vezes também há a simulação de afeto: a pessoa entende suas emoções, sabe o que dizer, mas não se comove de verdade com elas. Ela pode saber o que você sente, mas não sente com você. Em vez de encontro, há cálculo.

Em muitos casos, o que mais destrói é uma técnica psicológica quase invisível: o gaslighting. Não se trata apenas de mentir. Trata-se de minar sua confiança na própria percepção. Surgem frases como “você é sensível demais”, “você imagina coisas”, “você está exagerando”, “você está ficando instável”. Aos poucos, a vítima começa a duvidar da própria memória, da própria intuição e até do próprio valor. E uma consequência quase inevitável é a inversão do papel de vítima. Quando confrontada, a pessoa não repara. Ela se vitimiza. Ela vira o ferido, o injustiçado, o incompreendido. E quem denuncia passa a ser visto como agressor. Esse mecanismo é especialmente eficaz porque sequestra a empatia do outro e transforma a dor em arma.

Somado a isso, aparece a falta de responsabilidade afetiva. Não há pedido de desculpas verdadeiro, ou até existe um “desculpa”, mas o padrão se repete. Sem mudança real, a palavra vira estratégia. Muitas vezes também há uma relação flexível com regras e acordos: promessas quebradas, pequenas mentiras, combinações reescritas conforme o interesse do momento. A pessoa que convive entra num esforço interminável de se ajustar - e quase sempre perde.

O impacto desse tipo de convivência costuma ser profundo e gradual. Não é um choque que acontece em um dia. É um desgaste contínuo. Quem convive começa a apresentar ansiedade, hipervigilância, sensação de estar sempre pisando em ovos, baixa autoestima, confusão mental e culpa crônica. Em muitos casos, surge também isolamento, porque a vítima sente que ninguém vai acreditar nela. E existe um detalhe cruel: o agressor costuma preservar uma imagem pública muito boa, enquanto a vítima aparece “nervosa”, “instável”, “dramática”. Isso aumenta a solidão emocional e a sensação de impotência.

Diante disso, como se prevenir? Aqui está uma das partes mais importantes para qualquer leitor leigo. Prevenção não é “descobrir quem é psicopata”. Prevenção é não se perder de si mesmo dentro de uma dinâmica adoecedora. Um primeiro ponto é confiar nos sinais repetidos e não apenas no episódio isolado. Todo mundo erra. Mas o que adoece é o padrão: repetir, negar, inverter e desgastar. Um segundo ponto é observar como você se sente depois do contato. Relações saudáveis podem ser difíceis, mas não te deixam menor. Se toda conversa termina com dúvida, culpa e confusão, isso é um sinal. Também é importante evitar entregar sua vida íntima com profundidade a quem não demonstra cuidado consistente: pessoas manipuladoras podem usar vulnerabilidades como mapa.

Um exercício simples e poderoso é colocar limites claros e observar a reação. Um limite saudável não precisa gritar. Ele pode ser calmo: “não aceito esse tom comigo”, “eu preciso de respeito nessa conversa”, “sobre isso, minha decisão está tomada”. E o que realmente importa é a resposta do outro. Alguém emocionalmente saudável pode se frustrar, mas tenta reparar. Uma personalidade manipuladora tende a atacar, punir, ridicularizar ou inverter o jogo. E, quando o ambiente é assim, ter rede de apoio se torna vital. Ninguém se protege sozinho. Uma rede não precisa ser uma multidão: bastam duas ou três pessoas confiáveis que devolvam realidade.

Em alguns casos, conversar não melhora. Piora. Porque o outro não quer construir: quer vencer. E então pode ser necessário um distanciamento emocional como forma de autocuidado. Distanciamento não é frieza. É proteção. É parar de se oferecer como alvo. É reduzir exposição, reorganizar a vida, recuperar o centro interno. Às vezes, a solução não é diálogo - é redução de contato, limites firmes e, quando necessário, afastamento gradual.

E a pergunta que sempre aparece é: “mas tem tratamento? dá para mudar?”. Nos casos graves, o prognóstico costuma ser limitado. Muitas dessas pessoas não procuram ajuda por sofrimento interno, e sim por conveniência, pressão externa ou interesses secundários. Nos quadros mais leves e subclínicos, pode haver alguma melhora comportamental - especialmente quando existe certo grau de consciência, algum medo de perder vínculos ou um desejo real de funcionar melhor. Ainda assim, é fundamental que o leitor leigo compreenda uma realidade dura, mas libertadora: o foco do cuidado quase sempre precisa estar mais em quem convive do que em quem agride. Porque é o convivente que adoece tentando entender, provar, consertar e salvar.

E aqui chegamos a um ponto de humanidade essencial. Existe uma diferença vital entre compreender e se sacrificar. Compreender ajuda você a sair do labirinto mental. Mas se sacrificar para manter um vínculo destrutivo é outra coisa: é desistir de si. Se você convive com alguém emocionalmente frio, manipulador ou antissocial em algum grau, não precisa cair no ódio nem na paranoia. Precisa, acima de tudo, de lucidez para enxergar o padrão, limites para proteger seu espaço interno e apoio para não carregar isso sozinho. Porque convivência humana não deveria ser um jogo de sobrevivência emocional. Relações existem para sustentar a vida - não para consumir a alma.

E se você estiver saindo de uma dinâmica assim, guarde uma frase como lembrança e cura: o que você perdeu não foi “fraqueza”. Foi energia tentando amar alguém que não sabe amar de volta.

Um abraço,

Paulo Cesar T. Ribeiro

  • Psicoterapeuta de adolescentes, adultos e gestantes e Psicólogo Orientador Parental
  • Escritor.
  • Contatos: www.psipaulocesar.psc.br

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A mulher que está se submetendo a um tratamento de fertilidade e que não se sente emocional e psicologicamente equilibrada, pode estar precisando de algum tipo de apoio à saúde mental como a psicoterapia. Isso não é incomum, pois cerca de 80% das pacientes que lidam com a infertilidade realmente vivem algum sofrimento psicoemocional – e 30 a 40% dessas pessoas podem apresentar importantes graus de depressão e ansiedade.

Observa-se, por exemplo, que se houver excesso de controle e rigidez, a escolha e capacidade de prever o que ocorrerá nessa fase que está por vir é influenciada por um elevado nível de estresse. Em outras palavras, há uma considerável pluralidade de mulheres em tratamento de infertilidade que ficará estressada visto que engravidar não está mais sob seu controle, suas possibilidades de decisões são subitamente limitadas e os resultados futuros podem se tornar desconhecidos. Ademais, se a paciente, em adição ao estresse consequente dos desafios de fertilidade, também crê que a sua condição diária (de fadiga, frustração, ansiedade, irritação, ou seja, de estresse) é o agente causador dos problemas de infertilidade, poderão advir sentimentos de culpa e vergonha, além do aumento do próprio estresse.

A boa notícia é que o aconselhamento centrado no cliente e/ou o tratamento psicoterápico na área de infertilidade vem sendo considerado cada vez mais conveniente e proficiente na preparação de pacientes para o tratamento, resolvendo os efeitos psicológicas negativos e dando suporte ao planejamento de suas vidas após o tratamento, independentemente do resultado.

De fato, em situações como transferência de embriões, a recuperação de óvulos, a espera pelos resultados de teste de gravidez, a decisão sobre esperma ou óvulo doado, adoção ou útero de substituição ou simplesmente lidando com resultados não esperados mostram a necessidade de suporte psicoemocional para a melhor condição de saúde mental.

A experiência tem mostrado que, ao iniciar o processo de fertilização assistida, as informações prestadas pelos médicos como esclarecimentos de procedimentos, o entendimento dos termos médicos bem como o conhecimento das possibilidades de resultados são suficientes para diminuir a ansiedade. Por exemplo, assimilar que as alterações hormonais provocadas pelo estresse geralmente são autocorretivas e limitadas no tempo, ou são apenas gatilhos para condições médicas preexistentes, ajuda, na maioria dos casos, a minimizar ou eliminar culpas ou vergonhas, e estimula o paciente a se sentir mais confortável para compartilhar suas preocupações com outras pessoas. Entretanto, no seguimento do tratamento, pode haver a necessidade do apoio de um psicólogo quando tiver que tomar decisões, ou para aderir às prescrições de medicamentos feitas pelo médico. bem como para aprender a lidar com perguntas intrusivas de familiares ou gestações de amigos e como equilibrar-se entre as exigências profissionais e o autocuidado durante a delicada fase do processo de fertilização assistida - ou mesmo como suporte psicoemocional em situações de crise.

A maioria dos psicólogos atuante em psicoterapia de mulheres inférteis afirmam que de três a seis meses de terapia podem fazer uma grande diferença nos níveis de estresse durante o tratamento. Ainda que muitos pacientes com ansiedade ou estresse leves contem com a família e amigos com redes de apoio, é muito importante receber ajuda de um profissional da área de saúde mental pelo tempo que for necessário.

Os psicólogos utilizam técnicas psicoterapêuticas variadas, inclusive técnicas de relaxamento e de meditação, todas apropriadas à situação que a paciente vive. Vale dizer que esses profissionais são flexíveis e usam mais de uma abordagem para ajudar as pacientes em suas jornadas psicológicas.

Deve-se salientar, aliás, que mais importante do que as técnicas são os objetivos da psicoterapia ou apoio psicoemocional no decorrer do tratamento de infertilidade, como, por exemplo, ajudar o paciente a seguir sempre em frente sem que haja perda desnecessária de tempo. Com certeza, contar com esse apoio psicológico especializado vai ajudar a paciente a manter-se resoluta em sua meta de construir a sua família. O psicólogo poderá assegurar a superação de estágios emocionais complicados – qualquer pessoa lida com decepções e alegrias e equilibra-se superando-as, cada qual em seu próprio ritmo, além de entender que podemos experimentar mais de uma emoção simultaneamente. A pessoa não precisa resolver todos os seus problemas para seguir em frente, afinal, nem a vida nem o tratamento da infertilidade funcionam assim. Enfim, a abordagem psicoterápica durante esse processo auxilia as pessoas a assimilarem que devem ser atentas com suas vidas e a buscarem melhorias e mudanças, e não apena, ajudar a diminuir a ansiedade, o estresse e a depressão, os quais podem interferir na capacidade de engravidar.

Você pode acessar os conteúdos divulgados nesses locais:

Um abraço,

Psicólogo Paulo Cesar

    • Psicoterapeuta de adolescentes, adultos e casais.
    • Psicólogo de linha humanista existencial com acentuada orientação junguiana, budista e pós-graduações em Sexualidade Humana, Autismo e Psicologia Clínica.
    • Associado à ABRAP – Associação Brasileira de Psicoterapia
    • Associado à SBRA - Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida e à ABRA - Associação Brasileira de Reprodução Assistida
    • Colaborador do site HSPMAIS – Saúde Suplementar e de Apoio à Pesquisa Clínica (Serviço de Reprodução Humana da Escola Paulista de Medicina).
    • Palestrante sobre temas ligados ao comportamento humano no ambiente social e empresarial.

    ---

    • Consultório próximo à estação de metrô Vila Mariana em São Paulo, SP.
    • Atendimentos (presenciais e por internet) de segunda-feira a sexta-feira.

 

ACORDO PSICOTERAPÊUTICO E NORMAS DE FUNCIONAMENTO ENTRE PACIENTE E PSICÓLOGO PAULO CESAR T. RIBEIRO


ACORDO TERAPÊUTICO E NORMAS DE FUNCIONAMENTO

Um Cuidado Compartilhado Sobre o Nosso Trabalho



Este texto foi escrito com a intenção de tornar mais claro, seguro e acolhedor o espaço da psicoterapia. Ele não substitui o diálogo - ao contrário, existe para sustentá-lo.

A psicoterapia é um encontro humano, atravessado por afetos, limites, responsabilidades e escolhas. Quando essas bases estão bem compreendidas, o trabalho se torna mais profundo, respeitoso e possível.

Ao iniciar ou manter um processo psicoterapêutico comigo, peço que você leia com atenção os pontos abaixo:

  • Sobre a Psicoterapia

A psicoterapia é um espaço de escuta, reflexão, elaboração emocional e tratamento das condições psicológicas do paciente. Não se trata de respostas prontas, conselhos rápidos ou soluções imediatas, mas de um processo construído ao longo do tempo, no ritmo possível para cada pessoa. Portanto, exige tempo, regularidade e envolvimento, não se configurando como aconselhamento pontual, orientação imediata ou solução rápida de problemas.

Reforçando, o compromisso com a regularidade e com o próprio processo é parte essencial do cuidado.

Os resultados dependem de múltiplos fatores, incluindo a disponibilidade emocional do paciente e a continuidade do trabalho com frequência regular.

  • Sigilo Profissional

Tudo o que é compartilhado em sessão é protegido por sigilo profissional, conforme o Código de Ética do Psicólogo.

O sigilo só poderá ser rompido em situações previstas em lei, como risco grave à vida do paciente ou de terceiros, ou mediante autorização expressa do próprio paciente.

O "set" psicoterapêutico é um espaço de segurança psíquica.

  • As Sessões

As sessões têm duração média de 50 minutos.

Estas informações tem como objetivo esclarecer as condições básicas do trabalho psicoterápico, garantindo transparência, respeito mútuo e um enquadre adequado para o cuidado psicológico.

O horário é reservado exclusivamente para o paciente.

Atrasos não implicam extensão do tempo da sessão.

A frequência (semanal ou outra) será definida em comum acordo, conforme a necessidade clínica.

  • Faltas e Cancelamentos

Cancelamentos devem ser comunicados com antecedência mínima de 24 horas.

Sessões não canceladas dentro desse prazo, assim como faltas sem aviso, serão cobradas, pois o horário foi reservado exclusivamente para você.

Em casos excepcionais, o psicólogo avaliará a situação de forma ética e sensível.

  • Honorários

O valor da sessão é previamente acordado.

O pagamento deve ser realizado conforme combinado (normalmente mensal).

Reajustes poderão ocorrer periodicamente, sempre com aviso prévio.

A psicoterapia é um serviço profissional, e a regularidade e a clareza financeira fazem parte do enquadre que sustenta o cuidado psicoterápico.

  • Modalidade Online

Nas sessões online, é importante que o paciente esteja num local reservado, silencioso e  com conexão adequada.

Problemas técnicos que inviabilizem a sessão serão avaliados caso a caso.

A confidencialidade depende também do cuidado do paciente com o ambiente em que se encontra.

  • Contato Fora das Sessões

O contato fora do horário terapêutico deve ser restrito a questões administrativas (horários, pagamentos, agendamentos, remarcações) e urgências.

A psicoterapia acontece prioritariamente no espaço da sessão, onde devem ser tratadas as demandas emocionais mais extensas. Entretanto, em situações de urgência e havendo disponibilidade do psicólogo, será possível a realização de uma sessão antes do horário regularmente revervado para o paciente.

  • Interrupção do Processo

A psicoterapia pode ser interrompida:

O processo psicoterápico pode ser interrompido pelo paciente, a qualquer momento., e pelo psicólogo, quando avaliar que o processo não há condições éticas ou clínicas para continuidade.

Sempre que possível, recomenda-se que essa decisão seja conversada em sessão, como forma de fechamento e elaboração.

  • Sobre Este Texto e a Confirmação de Leitura

Este acordo existe para cuidar do espaço terapêutico, do vínculo e da qualidade do trabalho que construímos juntos. Ele não é, de modo algum, um instrumento punitivo, mas um suporte para que a psicoterapia aconteça com clareza, respeito e segurança.

Caso você tenha recebido o link deste texto por mensagem, peço, por gentileza, que responda confirmando que recebeu e realizou a leitura. Essa confirmação não é burocrática - ela é apenas um gesto simples de cuidado compartilhado e clareza mútua.

A confirmação pode ser feita por mensagem de whatsapp, email ou no espaço para comentários (após o texto), no Blog do Paicólogo.

Obrigado,

Psicólogo Paulo Cesar T. Ribeiro

Prólogo do livro SALMO 133 NA MAÇONARIA - UNIÃO, EGO E FRATERNIDADE

 Queridos Irmãos,

Com alegria, informo a vocês que escrevi o livro Salmo 133 na Maçonaria - União, Ego e Fraternidade, uma leitura psicológica e simbólica para o mundo contemporâneo, fruto do diálogo entre minha vivência maçônica e a Psicologia.

Neste trabalho, o Salmo 133 é lido não apenas como ideal de união, mas como um espelho simbólico dos desafios reais da convivência fraterna, do ego e da maturidade emocional..

É um livro de 256 páginas em tamanho 16x23 cm, considerando os capítulos e apêncides, e para que tenham uma ideia do tom e da proposta da obra, compartilharei a seguir o Prólogo

Ao final, deixarei os links para quem desejar adquirir o livro.

Fraternalmente,
Paulo Cesar T. Ribeiro


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SALMO 133 NA MAÇONARIA - UNIÃO, EGO E FRATERNIDADE

Prólogo do livro 

 

Há textos que atravessam séculos como se fossem parte da respiração humana. O Salmo 133 é um deles. Curto como um sussurro e profundo como uma montanha, ele sobreviveu não apenas porque é belo, mas porque diz algo essencial sobre o destino humano: nascemos para o encontro, mas não sabemos como habitá-lo.

O tempo, ao passar, faz escolhas. Há textos que se tornam monumentos, outros que se reduzem a vestígios, outros ainda em ruínas que visitamos por curiosidade histórica. O Salmo 133 não pertence a nenhuma dessas categorias. Ele é um rio subterrâneo que atravessa séculos silenciosamente, brotando vez ou outra em pequenas superfícies de água pura, mas cujo curso profundo não se revela a quem apenas recita palavras. Seu poder não está na letra, mas na atmosfera que cria, na forma como toca o espaço psicológico entre os seres, na vibração que produz quando é lido não como poesia religiosa, mas como um estado interior.

Em um século marcado pela cultura do espelho, onde a predominância do ego é confundida com força e o vínculo fraterno se tornou uma commodity emocional descartável, o Salmo 133 ressurge não como uma citação antiga, mas como um antídoto existencial para a fragmentação contemporânea.

É por isso que ele sempre esteve presente no coração da Maçonaria, mesmo quando não se falava explicitamente dele. Incorporou-se ao rito sem anúncio, como se tivesse intuído que ali encontraria uma morada adequada: um espaço simbólico onde a fraternidade é menos um ideal e mais uma construção laboriosa do espírito.

O maçom que avança em silêncio pelo Templo talvez não perceba que, antes de atravessar qualquer grau, ele atravessa um estado de consciência. E este estado foi anunciado por Davi quando escreveu: “Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em “união”. A frase parece simples demais para inaugurar um caminho iniciático, mas sua simplicidade esconde um paradoxo: a “união” é sempre uma obra difícil.

E mais: ela é “suave”. Mas essa suavidade não é fraqueza. Ela é a força que se expressa sem violência; a potência que se manifesta sem atrito.

“união” é “suave” porque só pode surgir quando a aspereza do ego foi polida pelo ritual, quando o impulso natural de predominância foi substituído pela humildade da presença. Ela não se impõe; ela acontece quando o espírito encontra disciplina interna suficiente para escutar, acolher e sustentar o vínculo.

O rito a evoca simbolicamente no encontro de olhares, na contenção da palavra, no gesto de respeito mútuo, na tentativa de suspender - ainda que por instantes - as turbulências do ego. Ao entrar no Templo, o irmão não se torna automaticamente unido a ninguém; ele se coloca diante de um estado que precisa aprender a habitar, e este estado é, em essência, o Salmo 133 respirando através dele.

O portal ritual do Salmo 133 não é uma porta física ou um limite explícito; é um movimento de consciência. A “união” que ele celebra não é espontânea, nem sentimental, nem ingênua. Ela é construída como se se erguesse uma ponte entre territórios que, por natureza, não se compreendem de imediato.

O ego humano raramente deseja a “união”; ele deseja predominância, reconhecimento, segurança. A fraternidade, enquanto experiência psíquica, é um chamado contra a gravidade natural da psique, e o rito torna visível essa luta interior. Por isso o azeite que escorre sobre a “cabeça” de Aarão é uma metáfora adequada: a “união” exige um movimento vertical que desce sobre nós, uma descida suave que penetra as zonas onde a alma resiste, onde preferiríamos permanecer isolados, protegidos, intactos. A “união” ritual é um “óleo” que encontra fissuras e nelas repousa. 

Entrar no Templo é, portanto, fazer o gesto de se deixar alcançar por essa descida. Não é raro que os irmãos, mesmo os mais antigos, experimentem uma espécie de apaziguamento interior ao adentrar o espaço sagrado. Este apaziguamento não é mera associação afetiva ou nostalgia fraternal: é o reconhecimento, ainda que inconsciente, de que colocamos o pé em um território que suspende a lógica ordinária do mundo.

As tensões da vida profana não desaparecem, mas se reorganizam diante de algo mais amplo. O Salmo 133 age como um campo sutil, um convite à diminuição do ruído interno para que a percepção da presença do outro possa emergir com mais nitidez. Em outras palavras, ele prepara o psiquismo para o encontro.

E é desse encontro que nasce a verdadeira ritualidade. Nada no rito é apenas decorativo. Os símbolos - o compasso, o esquadro, a pedra bruta, o malhete - não falam de objetos, mas de estados psíquicos. Cada um deles aponta para um processo de transformação em que a “união” é o horizonte, não o ponto de partida.

Um irmão não se torna fraterno porque conheceu outro irmão; ele se torna fraterno porque permitiu que algo dentro dele fosse polido, reorientado, afinado. O Salmo não descreve uma “união” já conquistada: descreve uma “união” a ser continuamente reencenada. A cada reunião, a cada gesto, a cada silêncio compartilhado, o Templo se torna laboratório de um modo de ser que o mundo exterior raramente incentiva.

Talvez seja por isso que, para muitos maçons, a sensação de “voltar para casa” ao entrar no Templo não seja apenas emotiva, mas simbólica. A casa dos irmãos que o Salmo implicitamente menciona não é um lugar: é um estado. E como todo estado interior, ele precisa ser cultivado.

Não existe fraternidade madura sem vigilância constante, sem cuidado com as palavras, sem humildade diante dos próprios limites, sem a consciência de que o vínculo humano pode ser tão delicado quanto o “orvalho” que repousa sobre o Monte Hermon. É significativo que o Salmo utilize o “orvalho” como metáfora: ele não cai com violência, não se anuncia, não altera a paisagem abruptamente. Ele sustenta a vida com suavidade. A verdadeira “união” também age assim: discretamente, sustentando o que não aparece.

Quando o Salmo 133 ressoa dentro do Templo, mesmo que não seja lido, ele cria uma moldura invisível na qual os irmãos se reconhecem como participantes de uma obra comum. Não uma obra externa, mas uma obra interior. O rito não apenas conduz o maçom: ele o afina. Ele o coloca em uma frequência onde virtudes como paciência, escuta, cooperação e presença podem emergir com menos resistência.

E é precisamente essa frequência que Davi captou quando escreveu o Salmo. Ele não estava descrevendo um ideal utópico; estava descrevendo uma realidade possível - porém frágil - que só se sustenta quando há consciência do esforço necessário para mantê-la viva.

Assim, este texto inicial se volta ao coração do rito não para explicá-lo, mas para revelar que há um portal simbólico que antecede tudo. Antes de qualquer grau, antes de qualquer luz, antes de qualquer viagem, existe a necessidade de atravessar o estado interior que o Salmo 133 evoca. Ele é o limiar entre o homem que adentra o Templo e o homem que sai dele transformado, mesmo que de forma sutil.

A Maçonaria não adota o Salmo 133 como enfeite ou citação honrosa: ela o respira. E quando o maçom se permite entrar nessa respiração, o rito se torna não apenas um caminho de instrução, mas um caminho de “união” consigo, com o outro e com aquilo que transcende ambos.

Mas esse estado de consciência não se sustenta apenas no abstrato; ele é forjado em memória, gesto e ancestralidade. Antes de respirarmos o Salmo com a alma, precisamos honrá-lo em sua raiz concreta, compreendendo o que significavam o “óleo” e o “orvalho” para o homem que o escreveu e o que significam os gestos que o maçom reencena no Templo. É a partir dessa fundação histórica e mitológica que o símbolo se liberta para se tornar ferramenta psicológica.

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