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Daqui em diante, você encontrará muitos outros artigos sobre psicologia. A finalidade da Psicoterapia é entender o que está ocorrendo com o cliente, para ajudá-lo a viver melhor, sem sofrimentos emocionais, afetivos ou mentais. Aqui você encontrará respostas sobre a PSICOTERAPIA - para que serve e por que todos deveriam fazê-la. Enfim, você encontrará nesses artigos,informações sobre A PSICOLOGIA DO COTIDIANO DE NOSSAS VIDAS.

QUANDO A EREÇÃO CAI NO MEIO DO ENCONTRO

 Modo desempenho, tempo sexual e o que o corpo masculino está tentando dizer

(um texto para compreender sem humilhar, orientar sem medicalizar demais e cuidar sem pressa)

 

Há um tipo de sofrimento sexual masculino que quase nunca é descrito com serenidade - e,justamente por isso, costuma ser vivido em silêncio. O homem tem ereção, inicia a relação, o encontro acontece por alguns minutos e, de repente, o pênis amolece. Às vezes isso ocorre após dez ou quinze minutos, às vezes antes e, às vezes em meio a um momento de prazer. Ele se assusta, tenta “recuperar”, não consegue, encerra a relação e se recolhe. A parceira pode interpretar como desinteresse ou rejeição. Ele pode interpretar como fracasso, humilhação, perda de valor. O clima muda. O quarto, que era encontro, vira prova.

Esse fenômeno é muito mais comum do que se imagina e quase nunca tem uma única causa. Reduzi-lo simplesmente a “disfunção erétil” empobrece a compreensão. Em muitos casos, o que falha não é o pênis. O que colapsa é um estado interno de segurança. E quando isso acontece, o corpo responde com precisão. Ele não está traindo o homem. Está comunicando algo.

Antes de qualquer leitura moral ou relacional, é importante lembrar uma verdade básica: a ereção não é apenas um evento genital. Ela é uma função do organismo inteiro. Depende de circulação adequada, equilíbrio hormonal, ausência de fadiga extrema e boa condição metabólica, sim - mas depende sobretudo de um sistema nervoso que se sinta suficientemente seguro para permanecer em estado de excitação. A ereção é um fenômeno do corpo em modo de entrega. E entrega não se sustenta quando o organismo entra em modo de ameaça.

Por isso, quando a ereção cai no meio da relação, frequentemente está ocorrendo uma ativação do sistema de alerta do corpo. Às vezes de forma intensa, às vezes quase imperceptível, mas suficiente para alterar a fisiologia. Um pensamento automático surge como reflexo:

“Será que vou conseguir até o fim?”
“Estou demorando demais?”
“Ela está gostando?”
“E se acontecer de novo?”.

Esse microsegundo de dúvida já pode disparar ansiedade. A ansiedade mobiliza adrenalina. A adrenalina contrai vasos sanguíneos periféricos, aumenta a tensão muscular, altera a respiração e desloca o organismo para um estado de controle. O resultado pode ser imediato: o fluxo sanguíneo peniano diminui e a ereção cai.

Esse ponto é crucial: muitas vezes não é falta de desejo. É excesso de vigilância.

Em outros casos, o corpo já chega cansado ao encontro. O homem até inicia bem, mas vive sob estresse crônico, dorme mal, carrega sobrecarga mental ou preocupações profissionais e financeiras. O organismo liga, mas funciona no limite, como um motor sem reserva.

Há ainda situações em que fatores orgânicos participam com mais peso: oscilações hormonais, especialmente da testosterona, alterações vasculares iniciais, resistência insulínica, sedentarismo, uso de álcool, tabagismo ou efeitos colaterais de antidepressivos e outras medicações.

Muitas vezes isso aparece em fase subclínica: não há uma doença instalada, mas existe um terreno corporal menos favorável. Por isso, uma boa avaliação médica pode ser importante, sobretudo quando o quadro é persistente, progressivo ou acompanhado de outros sinais, como queda de libido, cansaço extremo ou alterações de humor.

Ainda assim, na prática clínica psicoterápica, o cenário mais frequente é outro. O homem começa bem, o encontro avança e, em algum ponto, ele entra no que chamamos de modo desempenho. Esse nome não é acusação; é descrição. Modo desempenho é quando a sexualidade deixa de ser experiência e passa a ser avaliação. Ele não está apenas no corpo - começa a se observar por dentro, como se houvesse uma câmera interna julgando cada movimento. O foco, que deveria estar na sensação, migra para o resultado. Ele sai do encontro e entra numa prova silenciosa.

Nessa passagem, algo essencial se perde: a espontaneidade. A ereção, que é resposta de entrega, não se sustenta quando o sujeito se coloca sob vigilância. E essa vigilância não precisa ser explícita para ser devastadora. Basta uma pergunta interna, um medo antigo, uma memória de falha, uma comparação, um “será que…”, para o corpo sair do modo excitação e entrar no modo controle. Vale dizer que a excitação pede presença e, por outro lado, o desempenho pede comando. São estados que raramente convivem bem no mesmo organismo.

Por trás desse modo de funcionar quase sempre há uma história. Muitos homens foram educados a entender sexo como prova de masculinidade. Aprenderam cedo, pela cultura, por piadas, por conversas entre amigos, pela pornografia ou por experiências anteriores, que “homem de verdade” está sempre pronto, tem ereção rápida, mantém por tempo suficiente, conduz a cena, satisfaz a parceira e não falha. Pouco se ensina sobre intimidade, ritmo, vulnerabilidade, afeto ou comunicação. Ensina-se resultado, mas quando o encontro vira resultado, o corpo reage como quem está sendo examinado.

Isso ajuda a compreender um fator frequentemente negligenciado: o impacto do ambiente social masculino. Um homem que escuta repetidamente amigos relatarem experiências sexuais como conquista, quantidade e performance, muitas vezes desvinculadas de afeto, acaba introjetando um roteiro silencioso do que o sexo deveria ser. Surge a comparação: “Com eles é fácil. Comigo não.” Se esse homem tem uma sexualidade mais relacional, se precisa de vínculo e presença emocional para se excitar, pode começar a desconfiar do próprio modo de desejar, como se houvesse algo errado nele. Instala-se um tribunal interno. O sexo, que deveria ser encontro, vira palco. A plateia imaginária entra no quarto. E a ereção, que pede privacidade psíquica, sente o peso da exposição.

O campo relacional do casal também participa. Não porque a mulher cause diretamente a perda da ereção, mas porque o corpo masculino é extremamente sensível ao clima emocional do encontro. Tensão silenciosa, ressentimentos acumulados, distanciamento afetivo ou pressão implícita para “funcionar” podem ser suficientes para que o organismo não se sinta seguro para relaxar. Às vezes a parceira, sem intenção, transmite impaciência ou cobrança, ou tenta ajudar de um modo que aumenta o foco no pênis e transforma a cena em monitoramento. Mesmo um suspiro, um olhar distraído ou uma mudança de postura pode ser vivido pelo homem como avaliação, especialmente quando ele já está hipersensível à possibilidade de falhar. Nesses casos, não é o comportamento em si - é o significado que aquilo assume dentro dele.

Há ainda uma vivência delicada: quando o sexo acontece sem reciprocidade emocional, quando um dos dois se sente sozinho no encontro, pode surgir no homem uma sensação de vazio relacional. Não é falta de desejo; é falta de presença compartilhada. O prazer vira tarefa, e tarefa chama desempenho. O desempenho chama vigilância e vigilância derruba a ereção.

Quando o episódio acontece uma única vez, pode ser apenas circunstancial. O problema é o que vem depois. Muitos homens, tomados pela vergonha, encerram a relação rapidamente para preservar a autoestima.

O silêncio se instala.
A mulher se sente rejeitada.
Ele se sente inadequado.
O episódio ganha peso simbólico.

A partir daí, pode surgir o ciclo clássico: episódio, frustração, medo de repetir, mais ansiedade, novo episódio. Em pouco tempo, o problema deixa de ser situacional e passa a ser condicionado. O sistema nervoso aprende e o corpo começa a associar sexo a risco.

Aqui cabe uma reinterpretação importante: o corpo não está falhando. Ele está tentando proteger. Protege do constrangimento, da exposição, da sensação de não ser suficiente. O pênis amolece como uma porta que se fecha quando o ambiente interno deixa de ser seguro.

Nesse ponto, muitas expectativas irreais entram em cena, especialmente sobre tempo. A cultura vende a ideia de que a penetração deveria durar longos períodos, como se sexo fosse prova de resistência. Mas estudos objetivos mostram algo bem diferente. Quando se mede com cronômetro em casais reais, o tempo médio entre o início da penetração e a ejaculação gira em torno de cinco a sete minutos, com a maioria dos homens ficando entre três e dez minutos. Tempos muito prolongados pertencem mais ao imaginário pornográfico do que à fisiologia humana. Quando se considera a relação inteira - carícias, preliminares, penetração e pós-contato - a maioria dos casais permanece entre quinze e trinta minutos.

Esses números só fazem sentido quando compreendemos algo fundamental: sexo não é maratona mecânica. O corpo masculino funciona em ciclos de excitação, pico e resolução. Quando o homem tenta sustentar ereção muito além do seu ritmo natural, especialmente sob pressão, ele entra ainda mais profundamente no modo desempenho. A consequência costuma ser exatamente o oposto do esperado: queda de ereção, perda de sensibilidade, dificuldade de ejacular, ansiedade e desconexão do prazer.

A ereção não tem um tempo padrão fixo. Ela dura enquanto houver excitação, enquanto o sistema nervoso estiver em modo segurança e enquanto o homem estiver presente no corpo. Pode oscilar durante o encontro. Não foi feita para ser um objeto rígido contínuo. Ela responde ao clima emocional.

Por isso, o parâmetro saudável não é duração. É qualidade de presença. Muitos encontros profundamente satisfatórios acontecem com poucos minutos de penetração. E muitos encontros longos são vazios, tensos ou performáticos. Clinicamente, não perguntamos apenas quanto tempo durou. Perguntamos se houve conexão, prazer compartilhado, segurança e espontaneidade. Isso diz muito mais sobre saúde sexual do que qualquer relógio.

O que fazer, então? Em primeiro lugar, abandonar o moralismo e o reducionismo. Em alguns casos, será necessário investigar fatores orgânicos, revisar medicações, avaliar saúde metabólica e vascular, considerar exames hormonais e observar hábitos de vida. Cuidar do corpo amplia segurança. Mas, na maioria das histórias, o núcleo do tratamento é psicológico e relacional, porque o que está em jogo não é apenas funcionar - é sentir-se seguro para existir dentro do encontro.

Na psicoterapia, trabalhamos para retirar o sexo do modo prova, desmontar crenças de performance, reduzir a autovigilância e reconstruir confiança corporal. Isso inclui aprender a reconhecer o instante em que o homem sai do corpo e vai para a cabeça e desenvolver caminhos concretos de retorno ao presente: respiração, atenção às sensações, contato com o próprio prazer sem meta, diminuição da pressa, autorização para pausas sem catástrofe.

Quando o casal participa, o trabalho se aprofunda: melhora-se a comunicação, esclarecem-se expectativas, desmonta-se a lógica da cobrança e reaprende-se a tocar sem monitorar, a convidar sem exigir, a acolher sem invadir. A intimidade deixa de ser obrigação e volta a ser possibilidade humana.

Há uma frase simples que costuma organizar tudo: a ereção não nasce da cobrança - nasce da presença. Presença é o oposto de vigilância. Presença é corpo habitado. Presença é encontro sem tribunal. Presença é o direito de ser imperfeito e ainda assim desejável.

Talvez a síntese mais importante seja esta: quando um homem perde a ereção no meio da relação, o fato em si pode ser fisiológico, mas o sofrimento ao redor é quase sempre existencial. Toca identidade, valor pessoal, medo de ser insuficiente, temor de decepcionar, vergonha de precisar de cuidado. E justamente por isso a saída não é forçar desempenho nem evitar sexo por medo. A saída é devolver segurança ao sistema nervoso, devolver humanidade ao encontro e devolver espaço para que o corpo responda no tempo dele.

Porque, quando o sexo deixa de ser prova e volta a ser vínculo, quando a pressão cai e a presença cresce, o corpo costuma fazer o que sabe fazer desde sempre: responder. E se não responder de imediato, isso não é sentença. É caminho. Um convite à escuta, à revisão de crenças e ao cuidado real - aquele cuidado que não apressa a cura, mas cria as condições para que ela aconteça.

Um abraço,

Paulo Cesar T. Ribeiro

  • Psicoterapeuta de adolescentes, adultos e gestantes – Presencial e Online.
  • Psicólogo Orientador Parental
  • Escritor.
  • Contatos: www.psipaulocesar.psc.br

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