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QUANDO A DOR DIZ QUE NÃO HÁ SAÍDA - SETEMBRO AMARELO

 Setembro Amarelo e a possibilidade de permanecer quando viver parece difícil demais 


Há momentos em que a vida pesa.

Não pesa como uma preocupação passageira, dessas que se dissolvem depois de uma noite de sono. Há dores que se acumulam em silêncio. Perdas, rejeições, fracassos, solidão, culpa, medo, esgotamento, conflitos familiares, dívidas, doenças, rupturas amorosas. Às vezes muitas delas chegam juntas. E pode acontecer de uma pessoa olhar para a própria existência e pensar: "Eu não consigo mais."

O Setembro Amarelo nos convida a conversar justamente com quem chegou perto desse lugar — ou com quem ama alguém que esteja atravessando uma dor assim. Mas talvez seja preciso começar sem discursos grandiosos. Quem sofre profundamente nem sempre precisa ouvir que "a vida é maravilhosa", que "tudo vai passar" ou que "é só pensar positivo". Ditas com a melhor das intenções, essas frases costumam aumentar a distância entre quem sofre e quem tenta ajudar. Porque, naquele momento, para aquela pessoa, a vida realmente não está parecendo maravilhosa.

É preciso começar por outro lugar. E eu acredito na sua dor.

Acredito que esteja difícil. Que você esteja cansado. Que existam momentos em que acordar, trabalhar, responder uma mensagem ou simplesmente atravessar mais um dia pareça exigir uma energia que você já não sabe onde encontrar. Reconhecer isso não é concordar com a desesperança. É apenas sentar-se, simbolicamente, ao lado de quem sofre antes de tentar lhe mostrar outro caminho.

Quando a dor ocupa todo o horizonte

O sofrimento intenso tem uma característica particularmente cruel: ele estreita nosso campo de visão.

Quando estamos relativamente bem, conseguimos imaginar alternativas. Pensamos no amanhã, reconsideramos decisões, pedimos ajuda, esperamos. Quando a dor emocional se torna extrema, a mente perde temporariamente essa flexibilidade. O presente parece eterno.

A pessoa não pensa apenas: "Estou sofrendo muito agora." Ela começa a sentir: "Será sempre assim." E existe uma diferença imensa entre essas duas frases. A primeira descreve um estado. A segunda transforma esse estado em destino.

É nesse ponto que a ideação suicida costuma aparecer como uma espécie de conclusão desesperada: se a dor parece interminável e nenhuma alternativa pode ser vista, desaparecer começa a parecer uma saída.

Mas há algo que precisa ser dito com muito cuidado: uma mente profundamente ferida nem sempre consegue enxergar as possibilidades que ainda existem. Isso não significa que a pessoa seja fraca ou incapaz. Significa que está sofrendo. Assim como uma tempestade muda aquilo que se vê pela janela, certas condições emocionais mudam a forma como enxergamos a nós mesmos, os outros e o futuro. A paisagem continua ali, além da tempestade, mesmo quando não conseguimos vê-la.

Talvez você não queira morrer. Talvez queira que a dor pare

Há uma pergunta que considero das mais importantes diante da ideação suicida: Você deseja realmente deixar de existir, ou deseja desesperadamente deixar de sofrer dessa maneira?

As duas coisas parecem iguais quando a dor alcança seu limite. Mas não são. E nessa diferença mora uma possibilidade. Porque, se o que se deseja interromper é o sofrimento, então o que precisamos procurar são caminhos para modificar o sofrimento — não para eliminar a pessoa que sofre.

Uma relação pode terminar. Uma dívida pode ser renegociada. Uma doença pode ser tratada. Uma depressão pode receber cuidado. Uma perda pode ser elaborada. Uma humilhação pode deixar de definir uma existência inteira. Uma solidão pode ser atravessada até que novos vínculos se tornem possíveis.

Nem todos os problemas têm solução rápida. Alguns deixam cicatrizes. Outros nos obrigam a aceitar realidades que jamais escolheríamos. Mas uma vida humana é sempre maior do que o momento em que está sendo julgada.

Não tome uma decisão definitiva a partir de uma dor que você está vivendo agora. Adie. Espere. Converse. Procure alguém. Permita que outra pessoa ajude a sustentar aquilo que, neste momento, está pesado demais para carregar sozinho.

Não é preciso resolver a vida inteira hoje

Talvez amanhã ainda existam problemas. Essa é uma verdade que também precisamos ter a coragem de dizer.

O Setembro Amarelo não deveria prometer que tudo ficará perfeito — a vida não oferece essa garantia a ninguém. Mas existe uma diferença enorme entre uma vida sem problemas e uma vida na qual os problemas podem ser enfrentados.

Às vezes, para quem está em sofrimento profundo, pensar nos próximos anos é insuportável. Então não pense nos próximos anos. Pense no próximo dia. Se ainda for muito, nas próximas horas. Se ainda parecer impossível, atravesse os próximos minutos.

Há momentos em que permanecer vivo não precisa ser uma grande declaração de amor à existência. Pode ser apenas um pequeno compromisso: "Hoje eu não vou decidir nada contra mim." Amanhã você poderá renovar esse compromisso. E depois novamente. Até que a vida volte a ganhar as dimensões que a dor havia escondido.

Pedir ajuda não é entregar sua vida a outra pessoa

Existe uma ideia perigosa de que deveríamos dar conta sozinhos dos nossos próprios conflitos. Não deveríamos. Somos seres relacionais. Precisamos dos outros desde o primeiro instante de nossa existência e continuamos precisando deles, de maneiras diferentes, a vida toda.

Em momentos de crise, conversar com alguém de confiança pode romper o isolamento no qual os pensamentos destrutivos costumam crescer. E procurar ajuda profissional não é perder autonomia — é criar condições para recuperá-la. Psicólogos, psiquiatras e outros profissionais da saúde mental não existem para julgar o sofrimento de alguém, mas para ajudar a compreender o que está acontecendo e a construir alternativas quando a própria pessoa já não consegue enxergá-las.

Há dores que precisam de palavras. Há dores que precisam de tratamento. Há dores que precisam de companhia. E, com frequência, precisam das três coisas ao mesmo tempo.

Se alguém lhe disser que não quer mais viver

Não transforme a conversa em sermão. Não diga que é egoísmo. Não compare aquele sofrimento com o de quem "tem problemas maiores". Não tente vencer a pessoa numa discussão sobre as razões pelas quais ela deveria estar feliz.

Escute.

Talvez uma das frases mais humanas que possamos oferecer seja esta: "Eu não sei exatamente como é estar no seu lugar, mas você não precisa atravessar isso sozinho. Vamos procurar ajuda juntos."

Leve a sério qualquer manifestação de desejo de morrer. Permaneça próximo. Ajude a pessoa a procurar atendimento e, se houver risco imediato, não a deixe sozinha. Cuidar, nesse momento, é presença.

Há uma parte da sua história que você ainda não conhece

Talvez esta seja uma das coisas mais difíceis de perceber quando estamos desesperados: nós não conhecemos o restante da nossa própria história.

Já conhecemos o que perdemos, quem nos deixou, nossos erros, os dias ruins, aquilo que não aconteceu como queríamos. Mas ainda não conhecemos as pessoas que vamos encontrar. As conversas que teremos. Os lugares aonde chegaremos. Os afetos que ainda poderão nascer. Não conhecemos sequer, por inteiro, a pessoa que seremos daqui a alguns anos.

Encerrar a própria vida é encerrar também todas essas possibilidades antes que tenham a chance de acontecer. Por isso, se você está atravessando um tempo em que desaparecer parece mais fácil do que continuar, não tente resolver sozinho uma questão tão grande. Conte a alguém. Procure ajuda. Permaneça mais um pouco.

Talvez hoje você não consiga encontrar razões suficientes para uma vida inteira. Não há problema nisso. Encontre uma razão para atravessar este dia. Depois veremos o próximo.

O Setembro Amarelo existe para nos lembrar de algo que deveria permanecer conosco em todos os outros meses do ano: nenhum sofrimento humano deveria ser condenado ao silêncio. Falar pode não resolver de imediato aquilo que aconteceu. Mas pode abrir uma porta onde, até então, a dor só deixava enxergar paredes. E, às vezes, uma pequena abertura é tudo de que precisamos para começar.

Você não precisa decidir hoje sobre o restante da sua vida. Hoje, apenas permaneça. E permita que alguém permaneça ao seu lado.

 

Se houver risco imediato, ou se você estiver pensando em se ferir, procure ajuda agora. No Brasil, o CVV — Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia, e também por chat no site cvv.org.br. Você também pode procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) ou o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) mais próximo. Em emergências, acione o SAMU pelo 192 ou dirija-se a um pronto-socorro.

 Um abraço,

Psicólogo Paulo Cesar T. Ribeiro

  • Psicoterapeuta de adolescentes, adultos, casais e gestantes – Presencial e Online.
  • Psicólogo Orientador Parental
  • Psicólogo clínico de linha humanista existencial e de orientação das Psicologias Analítica (Carl Jung), Relacional e Budista.
  • Escritor.
  • Contatos: www.psipaulocesar.psc.br