- Psicólogo Clínico - Psicoterapeuta de adolescentes, adultos e gestantes – Presencial e Online.
- Psicólogo Orientador Parental
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PAULO C. T. RIBEIRO - Psicólogo de adolescentes, adultos, casais e gestantes. Formado na Univ. de Guarulhos, especializado na área clínica, com certificação em Racismo e Psicanálise (Achille Mbembe), extensão e certificação em Filosofia e Meditação e em Psicologia dos Excessos (PUCRS), pós graduações em Sexualidade Humana, Autismo (Famart) e Psicologia Clínica (PUCRS) e com diversos cursos de aperfeiçoamento e atualização.
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O TRABALHO, O SENTIDO E O VAZIO
A MULHER DE 45 ANOS E O AMOR ROMÂNTICO
POR QUE PODE SER TÃO DIFÍCIL ENCONTRAR
UM AMOR DEPOIS DOS 45 ANOS?
Sobre a autonomia conquistada, as feridas que aprendemos a carregar e a coragem de amar de novo
O paradoxo está justamente aí. Algumas das conquistas que tornam essa mulher mais preparada para amar são as mesmas que estreitam o espaço das relações que ela consegue aceitar. E as experiências que a amadureceram deixaram, quase sempre, cicatrizes que mudaram a maneira como ela confia, deseja e se protege. Por isso, essa dificuldade não se explica apenas pela idade, nem se resolve apenas com psicologia individual. É o encontro delicado entre uma história emocional, uma vida já construída e um mundo que mudou muito nas últimas décadas.
Quando a paz começou a ter valor
Talvez a transformação mais importante da maturidade seja esta: a solidão deixa de ser o maior de todos os medos.
Quando uma mulher descobre que consegue viver sozinha - trabalhar, administrar sua casa, viajar, cultivar amizades, sustentar a própria rotina -, alguma coisa se desloca por dentro. O relacionamento deixa de ser um projeto obrigatório de vida e passa a competir com uma vida que já existe e que, com esforço, encontrou alguma paz. E quem conquistou paz faz outra pergunta diante de um pretendente. Aos vinte, perguntava-se: "eu gosto dele?" Agora a pergunta é mais funda e mais adulta: "minha vida fica melhor com ele dentro dela?"
É por isso que comportamentos que talvez fossem tolerados décadas antes - o ciúme que sufoca, a irresponsabilidade, a indisponibilidade afetiva, a desigualdade silenciosa na divisão das responsabilidades - se tornam agora inaceitáveis com uma rapidez que os outros muitas vezes confundem com exigência. Não é exigência. É, quase sempre, clareza sobre o que já não se quer repetir.
Ainda assim, aqui mora uma fronteira sutil, e vale reconhecê-la com honestidade. A seletividade madura diz: "aprendi o que me faz mal e não quero voltar a isso." A rigidez defensiva diz outra coisa: "preciso garantir que nunca mais vou sofrer." A primeira preserva a dignidade. A segunda, sem perceber, fecha a porta - porque nenhuma relação humana, nenhuma, oferece a garantia de que não haverá dor.
Quando a experiência vira vigilância
Ninguém chega intacto aos quarenta e cinco. Houve amores, perdas, decepções, talvez uma traição, talvez um casamento que se desfez devagar. A experiência ensina. Mas também assusta.
Depois de uma relação que feriu, a pessoa desenvolve uma sensibilidade extraordinária para reconhecer qualquer coisa que lembre o que viveu. O problema é que o sistema psíquico nem sempre distingue com precisão o perigo real da simples semelhança com um perigo antigo. Uma mensagem que demora a chegar pode acordar o fantasma do abandono. Uma discordância pode soar como o prenúncio de um autoritarismo. Um pedido de espaço pode ser lido como rejeição.
Instala-se, então, a hipervigilância afetiva. A mulher já não está apenas conhecendo aquele homem - está, sem saber, procurando nele os vestígios de todos os homens que a machucaram. É compreensível. Mas tem um preço. Quem procura sinais de perigo com intensidade suficiente sempre os encontra, porque nenhum ser humano é isento de falhas. Forma-se um paradoxo cruel: quanto maior o medo de errar de novo, menor se torna a disponibilidade para conhecer alguém o bastante para descobrir quem ele realmente é.
Vale acrescentar aqui um cuidado. A linguagem psicológica popularizou-se, e isso trouxe ganhos reais - hoje se reconhece com mais facilidade a manipulação, o abuso, o controle. Mas trouxe também um efeito colateral. Palavras como "narcisista", "tóxico", "gatilho" e "red flag" passaram a ser usadas com uma largueza que ultrapassa seu sentido. Uma pessoa pode ser insegura sem ser manipuladora. Pode ter dificuldade de se comunicar sem ser narcisista. Pode precisar de tempo para construir intimidade sem ter, por isso, um apego evitativo. Existe uma diferença importante entre perceber sinais consistentes de perigo e transformar qualquer desconforto num veredicto sobre o caráter do outro.
O desejo que convive com o medo
Há ainda um conflito mais silencioso, e talvez o mais humano de todos. Uma mulher pode dizer, com total sinceridade: "quero encontrar alguém." E querer de verdade. E, ao mesmo tempo, uma outra parte dela sussurra: "e o que será da vida que construí?"
Quem viveu sozinho por muito tempo desenvolveu horários, hábitos, pequenas soberanias cotidianas. A chegada de outra pessoa exige negociação - onde morar, como cuidar do dinheiro, quanto tempo juntos, como lidar com filhos de antes, quanto espaço cada um precisa. Amar é encontro, mas é também renúncia a pequenas parcelas de autonomia. É perfeitamente possível desejar profundamente a intimidade e temer, ao mesmo tempo, aquilo que ela cobra.
Na clínica, chamamos isso de ambivalência. E é essencial entender que ela não é mentira nem contradição. São duas necessidades igualmente legítimas convivendo dentro da mesma pessoa: "quero alguém perto de mim" e "não quero perder a vida que conquistei." O trabalho não é eliminar uma delas. É ajudá-las a conversar.
É aqui que aparece uma distinção que vale ouro: a diferença entre autonomia e hiperindependência. A autonomia diz: "sei cuidar de mim, e ainda assim posso construir algo com você." A hiperindependência diz: "não posso precisar de ninguém." A segunda costuma se disfarçar de força.
Nem sempre é. Muitas vezes, por trás dela, há uma história de decepções que ensinou uma regra dura e silenciosa - depender emocionalmente de alguém é perigoso. E então a pessoa aprende a resolver tudo sozinha, a não pedir, a não esperar, a não demonstrar fragilidade, a não deixar que ninguém cuide dela. Mas a intimidade exige exatamente a coragem de dizer, em certos momentos, "eu preciso de você" - não como dependência infantil, e sim como reciprocidade adulta. Não existe intimidade sem vulnerabilidade. Amar é permitir que alguém tenha importância, e permitir que alguém tenha importância é aceitar que essa pessoa também terá algum poder de nos afetar.
O parceiro real e o parceiro imaginado
Há um fenômeno curioso: quanto mais tempo alguém passa sem uma relação, mais tempo tem para imaginar como ela deveria ser. Aos poucos, vai se formando uma figura interna do parceiro ideal - maduro, culto, disponível, carinhoso, seguro, atraente, bem resolvido, financeiramente organizado, interessante e, claro, encantado por ela. Nenhum desses desejos, isoladamente, é absurdo. O problema começa quando todos precisam existir na mesma pessoa, ao mesmo tempo. Cada atributo obrigatório que somamos estreita, matematicamente, o universo de pessoas possíveis.
Talvez a pergunta mais transformadora aqui não seja "o que eu exijo", mas "o que é, de fato, indispensável para eu ser feliz numa relação, e o que apenas seria agradável encontrar?" Honestidade pode ser essencial; altura é preferência. Respeito é inegociável; determinada profissão, não. Distinguir valores fundamentais de preferências superficiais muda por completo a maneira de procurar - e de ver quem já está na frente da gente.
Existe, ainda, uma armadilha particular entre mulheres muito competentes. O mundo profissional premia o controle, o planejamento, a avaliação de resultados. O amor funciona de outro modo. Não há currículo afetivo perfeito, nem processo seletivo capaz de prever uma relação, nem análise de risco que elimine a chance de sofrer. Quando a lógica da carreira invade o campo do afeto, o encontro vira entrevista - ela observa, compara, classifica, calcula se "vale o investimento". Tudo muito racional. Mas alguma coisa essencial se perde: a experiência de conhecer alguém antes de decidir quem essa pessoa é. O amor precisa de discernimento, sim, mas também precisa de curiosidade.
Existe, também, um mundo lá fora
Seria injusto - e clinicamente equivocado - transformar toda dificuldade amorosa numa questão interna da mulher. Há uma realidade social que não podemos ignorar.
Aos quarenta e cinco, o universo de parceiros é diferente daquele que existia aos vinte e cinco. Muitos estão casados; outros acabaram de sair de casamentos e não querem reconstruir uma vida conjugal tão cedo; alguns preferem companhia sem coabitação. Somam-se a isso as transformações profundas dos papéis de gênero: a mulher conquistou uma autonomia que redefiniu seu lugar nas relações, mas os modelos afetivos nem sempre acompanharam essa mudança no mesmo ritmo. Alguns homens convivem com naturalidade ao lado de mulheres resolvidas; outros se sentem intimidados por elas. Não há necessariamente um culpado nessa equação - há, muitas vezes, modelos relacionais que simplesmente não combinam.
Os aplicativos acrescentaram um último ingrediente. Nunca pareceu existir tanta possibilidade de conhecer gente. Mas possibilidade não é o mesmo que disponibilidade afetiva. Diante de dezenas de perfis, nasce a ilusão de que haverá sempre alguém melhor no próximo match, e essa fantasia de substituição infinita corrói justamente aquilo de que uma relação profunda mais precisa: tempo. E há, ainda, o preconceito de idade, que insiste em amarrar o valor afetivo da mulher à juventude. É preciso nomeá-lo para questioná-lo - mas jamais aceitá-lo como sentença. A mulher madura não tem menos valor. Ela está num mercado relacional diferente, que pede outra estratégia: menos preocupação em ser desejada por muitos, mais atenção em encontrar os poucos com quem existe verdadeira reciprocidade.
O risco de transformar uma dificuldade numa ferida
Depois de encontros frustrados e desaparecimentos súbitos, é fácil chegar a uma conclusão dolorosa: "há algo errado comigo." Essa frase merece ser examinada com muito cuidado, porque ela faz um estrago sutil.
Não encontrar alguém durante um período não é um diagnóstico sobre o próprio valor. Existe uma distância enorme entre "ainda não encontrei uma pessoa com quem consegui construir reciprocidade" e "ninguém me quer." A primeira descreve uma circunstância. A segunda transforma uma circunstância em identidade. E quando isso acontece, cada novo encontro deixa de ser um encontro e passa a funcionar como um teste - "será que ele vai gostar de mim? será que minha idade incomoda? será que ele também vai sumir?". Já não há duas pessoas se conhecendo; há alguém tentando arrancar do outro uma confirmação sobre o próprio valor. E o encontro, assim, fica pesado demais para florescer.
O que a psicoterapia pode oferecer
É exatamente nesse ponto que a psicoterapia se torna, a meu ver, um caminho generoso - não como conserto de um defeito, mas como espaço de escuta e reencontro consigo mesma.
Quando uma mulher chega dizendo "quero muito encontrar alguém, mas nada dá certo", o trabalho não consiste em ensiná-la a escolher homens melhores. Consiste em investigar, com delicadeza, algo mais fundo. Que homens despertam seu desejo, e quais ela afasta? Em que momento costuma perder o interesse? O que acontece, por dentro, quando alguém realmente se aproxima? Há um tipo de homem que provoca paixão mas não oferece segurança, e outro que oferece segurança mas não desperta desejo? Ela está selecionando ou está se defendendo? Está evitando relações ruins, ou está evitando qualquer relação capaz de mexer com suas defesas? Que histórias da própria família aparecem nessas escolhas? Como ela aprendeu a amar, e como aprendeu a se deixar amar?
E talvez a pergunta mais delicada de todas, aquela que costuma abrir uma porta: "o que você precisaria arriscar, emocionalmente, para que alguém pudesse mesmo entrar na sua vida?"
Porque encontrar o outro não depende só da vontade. Depende também de disponibilidade psicológica para ser encontrada. A psicoterapia é o lugar onde o desejo consciente de amar e os medos silenciosos que o sabotam finalmente podem se sentar na mesma sala e conversar. É onde as cicatrizes deixam de ditar as regras sem que a pessoa perceba. É onde a hipervigilância pode, aos poucos, dar lugar a uma confiança que não é ingenuidade, mas escolha madura. Não se trata de baixar exigências - ninguém deveria abrir mão de respeito, reciprocidade ou segurança emocional só para não ficar só. Trata-se de refiná-las: ser inteiramente firme naquilo que toca os valores essenciais e um pouco mais gentil diante das imperfeições inevitáveis de qualquer ser humano real.
O amor maduro começa onde termina a idealização
Amar aos quarenta e cinco significa algo diferente do que significava aos vinte. Não mais pobre. Talvez mais verdadeiro. Duas pessoas maduras não chegam vazias uma diante da outra. Chegam carregando histórias, filhos talvez, ex-companheiros, medos, hábitos, cicatrizes, corpos que mudaram e uma identidade construída muito antes daquele encontro. O desafio já não é fundir duas vidas numa só - é algo mais sofisticado e mais bonito: aproximar duas vidas inteiras sem destruir a singularidade de nenhuma delas.
Isso exige maturidade para escolher, mas também coragem para não transformar a experiência numa couraça. A mulher que aprendeu a viver sozinha não precisa abrir mão da própria autonomia para amar. Precisa, quem sabe, descobrir uma forma ainda mais madura de autonomia - aquela em que é capaz de dizer, com serenidade: "eu não preciso de você para existir. Mas posso desejar profundamente compartilhar minha existência com você."
Existe uma diferença imensa entre precisar de alguém para preencher um vazio e permitir que alguém ocupe um lugar significativo numa vida que já tem sentido. E talvez seja justamente aí que o amor, depois dos quarenta e cinco, encontre a sua forma mais bela: não como salvação, nem como dependência, nem como obrigação social - mas como o encontro entre duas pessoas que aprenderam a permanecer de pé sozinhas e que, apesar de todos os riscos, ainda guardam a coragem de caminhar juntas.
Paulo Cesar T. Ribeiro
QUANDO A DOR DIZ QUE NÃO HÁ SAÍDA - SETEMBRO AMARELO
Setembro Amarelo e a possibilidade de permanecer quando viver parece difícil demais
Há momentos em que a
vida pesa.
Não
pesa como uma preocupação passageira, dessas que se dissolvem depois de uma
noite de sono. Há dores que se acumulam em silêncio. Perdas, rejeições,
fracassos, solidão, culpa, medo, esgotamento, conflitos familiares, dívidas,
doenças, rupturas amorosas. Às vezes muitas delas chegam juntas. E pode
acontecer de uma pessoa olhar para a própria existência e pensar: "Eu não
consigo mais."
O
Setembro Amarelo nos convida a conversar justamente com quem chegou perto desse
lugar — ou com quem ama alguém que esteja atravessando uma dor assim. Mas
talvez seja preciso começar sem discursos grandiosos. Quem sofre profundamente
nem sempre precisa ouvir que "a vida é maravilhosa", que "tudo
vai passar" ou que "é só pensar positivo". Ditas com a melhor
das intenções, essas frases costumam aumentar a distância entre quem sofre e
quem tenta ajudar. Porque, naquele momento, para aquela pessoa, a vida
realmente não está parecendo maravilhosa.
É
preciso começar por outro lugar. E eu acredito na sua dor.
Acredito
que esteja difícil. Que você esteja cansado. Que existam momentos em que
acordar, trabalhar, responder uma mensagem ou simplesmente atravessar mais um
dia pareça exigir uma energia que você já não sabe onde encontrar. Reconhecer
isso não é concordar com a desesperança. É apenas sentar-se, simbolicamente, ao
lado de quem sofre antes de tentar lhe mostrar outro caminho.
Quando
a dor ocupa todo o horizonte
O
sofrimento intenso tem uma característica particularmente cruel: ele estreita
nosso campo de visão.
Quando
estamos relativamente bem, conseguimos imaginar alternativas. Pensamos no
amanhã, reconsideramos decisões, pedimos ajuda, esperamos. Quando a dor
emocional se torna extrema, a mente perde temporariamente essa flexibilidade. O
presente parece eterno.
A
pessoa não pensa apenas: "Estou sofrendo muito agora." Ela começa a
sentir: "Será sempre assim." E existe uma diferença imensa entre
essas duas frases. A primeira descreve um estado. A segunda transforma esse
estado em destino.
É
nesse ponto que a ideação suicida costuma aparecer como uma espécie de
conclusão desesperada: se a dor parece interminável e nenhuma alternativa pode
ser vista, desaparecer começa a parecer uma saída.
Mas
há algo que precisa ser dito com muito cuidado: uma mente profundamente ferida
nem sempre consegue enxergar as possibilidades que ainda existem. Isso não
significa que a pessoa seja fraca ou incapaz. Significa que está sofrendo.
Assim como uma tempestade muda aquilo que se vê pela janela, certas condições
emocionais mudam a forma como enxergamos a nós mesmos, os outros e o futuro. A
paisagem continua ali, além da tempestade, mesmo quando não conseguimos vê-la.
Talvez
você não queira morrer. Talvez queira que a dor pare
Há
uma pergunta que considero das mais importantes diante da ideação suicida: Você
deseja realmente deixar de existir, ou deseja desesperadamente deixar de sofrer
dessa maneira?
As
duas coisas parecem iguais quando a dor alcança seu limite. Mas não são. E
nessa diferença mora uma possibilidade. Porque, se o que se deseja interromper
é o sofrimento, então o que precisamos procurar são caminhos para modificar o
sofrimento — não para eliminar a pessoa que sofre.
Uma
relação pode terminar. Uma dívida pode ser renegociada. Uma doença pode ser
tratada. Uma depressão pode receber cuidado. Uma perda pode ser elaborada. Uma
humilhação pode deixar de definir uma existência inteira. Uma solidão pode ser
atravessada até que novos vínculos se tornem possíveis.
Nem
todos os problemas têm solução rápida. Alguns deixam cicatrizes. Outros nos
obrigam a aceitar realidades que jamais escolheríamos. Mas uma vida humana é
sempre maior do que o momento em que está sendo julgada.
Não
tome uma decisão definitiva a partir de uma dor que você está vivendo agora.
Adie. Espere. Converse. Procure alguém. Permita que outra pessoa ajude a
sustentar aquilo que, neste momento, está pesado demais para carregar sozinho.
Não
é preciso resolver a vida inteira hoje
Talvez
amanhã ainda existam problemas. Essa é uma verdade que também precisamos ter a
coragem de dizer.
O
Setembro Amarelo não deveria prometer que tudo ficará perfeito — a vida não
oferece essa garantia a ninguém. Mas existe uma diferença enorme entre uma vida
sem problemas e uma vida na qual os problemas podem ser enfrentados.
Às
vezes, para quem está em sofrimento profundo, pensar nos próximos anos é
insuportável. Então não pense nos próximos anos. Pense no próximo dia. Se ainda
for muito, nas próximas horas. Se ainda parecer impossível, atravesse os
próximos minutos.
Há
momentos em que permanecer vivo não precisa ser uma grande declaração de amor à
existência. Pode ser apenas um pequeno compromisso: "Hoje eu não vou
decidir nada contra mim." Amanhã você poderá renovar esse compromisso. E
depois novamente. Até que a vida volte a ganhar as dimensões que a dor havia
escondido.
Pedir
ajuda não é entregar sua vida a outra pessoa
Existe
uma ideia perigosa de que deveríamos dar conta sozinhos dos nossos próprios
conflitos. Não deveríamos. Somos seres relacionais. Precisamos dos outros desde
o primeiro instante de nossa existência e continuamos precisando deles, de
maneiras diferentes, a vida toda.
Em
momentos de crise, conversar com alguém de confiança pode romper o isolamento
no qual os pensamentos destrutivos costumam crescer. E procurar ajuda
profissional não é perder autonomia — é criar condições para recuperá-la.
Psicólogos, psiquiatras e outros profissionais da saúde mental não existem para
julgar o sofrimento de alguém, mas para ajudar a compreender o que está
acontecendo e a construir alternativas quando a própria pessoa já não consegue
enxergá-las.
Há
dores que precisam de palavras. Há dores que precisam de tratamento. Há dores
que precisam de companhia. E, com frequência, precisam das três coisas ao mesmo
tempo.
Se
alguém lhe disser que não quer mais viver
Não
transforme a conversa em sermão. Não diga que é egoísmo. Não compare aquele
sofrimento com o de quem "tem problemas maiores". Não tente vencer a
pessoa numa discussão sobre as razões pelas quais ela deveria estar feliz.
Escute.
Talvez
uma das frases mais humanas que possamos oferecer seja esta: "Eu não sei
exatamente como é estar no seu lugar, mas você não precisa atravessar isso
sozinho. Vamos procurar ajuda juntos."
Leve
a sério qualquer manifestação de desejo de morrer. Permaneça próximo. Ajude a
pessoa a procurar atendimento e, se houver risco imediato, não a deixe sozinha.
Cuidar, nesse momento, é presença.
Há
uma parte da sua história que você ainda não conhece
Talvez esta seja uma
das coisas mais difíceis de perceber quando estamos desesperados: nós não
conhecemos o restante da nossa própria história.
Já
conhecemos o que perdemos, quem nos deixou, nossos erros, os dias ruins, aquilo
que não aconteceu como queríamos. Mas ainda não conhecemos as pessoas que vamos
encontrar. As conversas que teremos. Os lugares aonde chegaremos. Os afetos que
ainda poderão nascer. Não conhecemos sequer, por inteiro, a pessoa que seremos
daqui a alguns anos.
Encerrar
a própria vida é encerrar também todas essas possibilidades antes que tenham a
chance de acontecer. Por isso, se você está atravessando um tempo em que
desaparecer parece mais fácil do que continuar, não tente resolver sozinho uma
questão tão grande. Conte a alguém. Procure ajuda. Permaneça mais um pouco.
Talvez
hoje você não consiga encontrar razões suficientes para uma vida inteira. Não
há problema nisso. Encontre uma razão para atravessar este dia. Depois veremos
o próximo.
O
Setembro Amarelo existe para nos lembrar de algo que deveria permanecer conosco
em todos os outros meses do ano: nenhum sofrimento humano deveria ser condenado
ao silêncio. Falar pode não resolver de imediato aquilo que aconteceu. Mas pode
abrir uma porta onde, até então, a dor só deixava enxergar paredes. E, às
vezes, uma pequena abertura é tudo de que precisamos para começar.
Você
não precisa decidir hoje sobre o restante da sua vida. Hoje, apenas permaneça.
E permita que alguém permaneça ao seu lado.
Se
houver risco imediato, ou se você estiver pensando em se ferir, procure ajuda
agora. No Brasil, o CVV — Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional
gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia, e também por chat no
site cvv.org.br. Você também pode procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) ou o
Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) mais próximo. Em emergências, acione o
SAMU pelo 192 ou dirija-se a um pronto-socorro.
Psicólogo Paulo Cesar T. Ribeiro
- Psicoterapeuta
de adolescentes, adultos, casais e gestantes – Presencial e Online.
- Psicólogo
Orientador Parental
- Psicólogo clínico
de linha humanista existencial e de orientação das Psicologias Analítica
(Carl Jung), Relacional e Budista.
- Escritor.
- Contatos: www.psipaulocesar.psc.br