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Daqui em diante, você encontrará muitos outros artigos sobre psicologia. A finalidade da Psicoterapia é entender o que está ocorrendo com o cliente, para ajudá-lo a viver melhor, sem sofrimentos emocionais, afetivos ou mentais. Aqui você encontrará respostas sobre a PSICOTERAPIA - para que serve e por que todos deveriam fazê-la. Enfim, você encontrará nesses artigos,informações sobre A PSICOLOGIA DO COTIDIANO DE NOSSAS VIDAS.

O TRABALHO, O SENTIDO E O VAZIO

Poucos temas retornam ao consultório com a constância do trabalho profissional. Sessão após sessão, homens e mulheres me contam o que fazem, com quem convivem, o que os consome e o que, ao fim do dia, lhes escapa. E há sempre, atravessando essas falas, uma pergunta que raramente é dita com todas as letras, mas que pulsa por baixo de tudo: será que isto que faço tem algum sentido? Será que a minha vida se realiza aqui, ou apenas se gasta?

Não é por acaso que a insatisfação com o trabalho apareça tantas vezes. O trabalho poderia ser — e às vezes é — o lugar onde aquilo que há de único em cada pessoa encontra a comunidade e ali recebe seu valor. É um dos raros territórios em que o mais íntimo de nós, o modo particular de olhar, de cuidar, de resolver, de estar presente, se oferece ao mundo e volta transformado em pertencimento. Mas convém dizer, e digo com cuidado, que esse sentido nunca nasce da profissão em si. Nasce da realização, não do cargo. Nenhum ofício, por mais nobre que seja, torna alguém pleno. A plenitude não está guardada dentro de uma profissão, à espera de quem a escolha. Ela depende de quem a exerce.

Muita gente chega até mim com uma convicção antiga e dolorida: teria se realizado, dizem, se tivesse escolhido outro caminho. E eu costumo devolver, sem dureza, uma outra maneira de olhar. Porque há aí, quase sempre, um engano sincero — o engano de quem transferiu para a profissão um peso que ela jamais poderia carregar. Se o ofício concreto não traz consigo nenhuma sensação de realização, não é a profissão que falhou, tampouco é caso de culpa. É que a profissão, sozinha, nunca foi capaz de tornar ninguém insubstituível. O que ela faz é mais modesto e mais generoso: oferece a oportunidade de vir a sê-lo. O caráter único de uma vida — a impossibilidade de sermos substituídos naquilo que só nós podemos e devemos fazer — não vem do que fazemos, mas de quem faz e de como faz. E se estende muito além do expediente: naquilo que somos como amigos, como amantes, como pais, como presença na vida de alguém.

Aprendi, ouvindo tanta gente ao longo de tantos anos, que a diferença raramente está na tarefa. Está no modo. Winnicott dizia, com aquela simplicidade que só os grandes alcançam, que é a capacidade de viver criativamente, de sentir que a vida vale a pena ser vivida, o que dá cor à existência — muito mais do que qualquer conquista. Há quem faça o trabalho mais humilde com uma inteireza que o dignifica, e há quem ocupe cargos altos habitando neles como um estranho, cumprindo um roteiro que não sente como seu. A alma percebe a diferença. Quando trabalhamos a partir de um falso self, de uma obediência sem entrega, o resultado até pode impressionar por fora; mas por dentro fica aquele eco de vazio, a sensação de estar representando uma vida em vez de vivê-la.

Talvez seja disto que os antigos falavam quando diziam vocação: não a profissão que se escolhe, mas o chamado que se atende. Jung compreendia o trabalho como um dos palcos da individuação, esse longo processo de nos tornarmos quem verdadeiramente somos. E o que individua não é o crachá — é a maneira como cada um se coloca por inteiro naquilo que faz.

É verdade, e seria desonesto não reconhecê-lo, que nem sempre o trabalho permite essa entrega. Há ofícios tão exatos, tão padronizados, tão impessoais, que dificilmente comportam a marca de quem os realiza. Nesses casos, seria ingênuo exigir que a tarefa em si carregasse um sentido que ela não pode dar. Ali o trabalho é, honestamente, um meio — o meio de ganhar a vida. E não há vergonha nenhuma nisso. Só que, quando é assim, a vida verdadeira começa depois: no tempo livre, naquilo que a pessoa faz com as horas que lhe pertencem, no modo pessoal e livre como configura o que sobra do relógio. O erro não é ganhar a vida num trabalho impessoal; o erro é esquecer de vivê-la no espaço que se abre para além dele.

Entre as falas mais tristes que escuto estão as de quem organizou a existência inteira em torno do acúmulo. Gente que junta, que multiplica, que conquista, e que, de tanto correr atrás do ter, se esquece de olhar para a própria vida enquanto ela passa. Quando esses pacientes enfim param — e quase sempre é o corpo, ou uma perda, ou um vazio súbito que os obriga a parar —, o que aparece é desconcertante: o dinheiro deles ainda tem um "para quê", mil finalidades, mil planos; mas a vida, essa, em algum momento deixou de ter. Acumularam meios e perderam o fim. Há aqui uma sabedoria antiga, que a tradição budista soube nomear com delicadeza: o desejo que não se sacia não enriquece, empobrece; quanto mais se agarra, mais escorre por entre os dedos. Ter mais nunca foi o mesmo que ser mais. E ninguém, que eu saiba, ficou mais feliz apenas por ter ficado mais rico que o vizinho.

Por isso insisto, com meus pacientes e comigo mesmo, em não perder de vista o que de fato tem valor: o valor de cada pessoa, o nosso e o daqueles com quem partilhamos os dias. É fácil, no meio da correria, tratar as pessoas como recursos e os anos como degraus de uma escada. Mas a vida não se mede pelo que empilhamos; mede-se pela profundidade com que nos deixamos tocar por ela.

Talvez você, que me lê, reconheça em alguma dessas linhas um pouco da própria inquietação. Se for assim, quero dizer com franqueza que ela não é um defeito a ser corrigido, mas uma porta. E existe um lugar, ainda pouco procurado para esse fim, onde essa porta pode ser atravessada sem pressa: o encontro terapêutico. A psicoterapia não serve apenas para aliviar sintomas ou atravessar crises; é também um espaço raro em que alguém pode escutar a si mesmo, sem julgamento, e perguntar honestamente o que, dentro daquilo que faz, ainda tem vida — e o que se tornou hábito, obrigação, repetição de um roteiro que não é seu. É nessa escuta paciente que muitos descobrem que não precisavam de outra profissão, mas de uma outra relação com a que já têm; que o vazio que sentiam não pedia um novo emprego, e sim um reencontro consigo mesmos. Buscar o sentido do trabalho é, no fundo, buscar o sentido da própria vida. E há caminhos que se fazem melhor quando não se está sozinho.

Há ainda uma última prova, talvez a mais reveladora de todas, de que o trabalho carrega um sentido que ultrapassa o salário. Ela se mostra justamente quando o trabalho falta. Quando a pessoa perde o emprego e experimenta não apenas o aperto material, mas um estranho vazio interior, um sentimento de inutilidade que nasce só do estar desocupada — como se, de repente, tivesse deixado de ter lugar no mundo. É desse vazio, e do que ele revela sobre nós e sobre o sentido que buscamos, que pretendo tratar no próximo artigo.

Paulo Cesar T. Ribeiro

  • Psicólogo Clínico - Psicoterapeuta de adolescentes, adultos e gestantes – Presencial e Online.
  • Psicólogo Orientador Parental
  • Escritor.e palestrante
  • Contatos: www.psipaulocesar.psc.br

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