Formas de Contato:

Fone e Whatsapp: 11.94111-3637

Email: paulocesar@psicologopaulocesar.com.br

Daqui em diante, você encontrará muitos outros artigos sobre psicologia. A finalidade da Psicoterapia é entender o que está ocorrendo com o cliente, para ajudá-lo a viver melhor, sem sofrimentos emocionais, afetivos ou mentais. Aqui você encontrará respostas sobre a PSICOTERAPIA - para que serve e por que todos deveriam fazê-la. Enfim, você encontrará nesses artigos,informações sobre A PSICOLOGIA DO COTIDIANO DE NOSSAS VIDAS.

O DESPERTAR DO MITO: DA FÁBULA AO FUNDAMENTO DA EXISTENCIA

Durante muito tempo, especialmente até o século XIX, o pensamento ocidental tratou o mito como o oposto do real: algo fantasioso, ilusório, quase infantil. O século XX, porém, promoveu uma virada decisiva. A partir de estudos como os de Mircea Eliade, o mito deixou de ser visto como invenção ingênua e passou a ser reconhecido como a própria base de sentido das sociedades tradicionais.

Para os povos arcaicos, o mito não era metáfora. Era verdade absoluta. Narrava acontecimentos sagrados ocorridos no “tempo dos começos” e, por isso, servia como modelo exemplar para todos os atos humanos. Comer, amar, construir, guerrear, governar: tudo só ganhava pleno sentido quando repetia um gesto inaugural de um Deus ou Herói. Ao imitar esse gesto primordial, o ser humano se desligava do desgaste do tempo comum e entrava no Grande Tempo, o tempo sagrado sempre renovado.

O mito, portanto, não era uma história sobre o mundo; era uma maneira de habitar o mundo.

Sagrado e profano: a ruptura moderna

Do ponto de vista social, certos símbolos coletivos continuam operando como focos de pertencimento e identidade. Contudo, no plano íntimo ocorreu uma fratura decisiva: o homem contemporâneo passou a pensar-se como indivíduo separado, autocentrado, enquanto o homem arcaico se compreendia sobretudo como participante de um drama cósmico maior do que ele.

Essa mudança teve consequências profundas. Aquilo que antes era vivido como participação num ritmo sagrado passou a ser experimentado como sucessão linear e cansativa de horas, dias e anos. O tempo tornou-se algo que se “mata”, não algo que se celebra.

Nas culturas tradicionais, o trabalho era rito. Plantar, caçar, tecer ou edificar significava colaborar com a ordem do cosmos. Por repetir o gesto divino inaugural, o trabalho inseria o homem num tempo pleno, não havia tédio nem a sensação de prisão.

Quando o trabalho perde esse caráter simbólico, transforma-se em obrigação nua. O homem moderno sente-se aprisionado pela profissão porque ela já não o conduz para fora do tempo desgastante. Incapaz de reencontrar no fazer cotidiano uma abertura para o sagrado, ele busca saídas laterais.

É aí que surgem as distrações.

Distração como tentativa de fuga do tempo

Livros, novelas, jogos e filmes oferecem um deslocamento para outros ritmos temporais. Ao mergulhar numa narrativa, a pessoa suspende por instantes o relógio biográfico e vive num tempo diferente do seu. Essa experiência revela algo importante: o desejo persistente de escapar da corrosão do tempo linear.

Nas sociedades antigas, quase não havia “distrações” porque não eram necessárias. O próprio viver já era atravessado por uma dimensão ritual que renovava o mundo a cada gesto responsável. Hoje, a fuga é compensatória. Ela alivia, mas não transforma.

O mito antigo elevava o cotidiano ao nível do cosmos. A distração moderna apenas anestesia o peso do cotidiano.

Ainda assim, essa fuga não é vazia. Ela mostra que o impulso mítico continua vivo.

O mito nunca desapareceu

Mesmo quando expulso do centro da vida social, o mito persiste na experiência interior. Ele reaparece nos sonhos, nas fantasias, nas nostalgias sem nome. Esse retorno não é acidental: o comportamento mítico é inseparável da condição humana porque expressa nossa angústia diante do tempo que passa e da morte que se aproxima.

Redescobrir o mito não significa abandonar a razão, mas reconhecer que há em nós uma dimensão que busca sentido por meio de narrativas exemplares, imagens fundadoras e jornadas simbólicas.

Esse reencontro pode inaugurar um novo humanismo, capaz de atravessar culturas.

O tesouro escondido em casa

A antiga história do rabino Eisik, de Cracóvia, ilustra de forma luminosa essa busca. Sonhando três vezes com um tesouro escondido sob uma ponte em Praga, ele empreende longa viagem. Vigiado por guardas, não consegue cavar. Ao contar seu sonho ao capitão, ouve dele uma gargalhada: o próprio capitão também sonhara com um tesouro em Cracóvia, atrás do fogão de um rabino chamado Eisik, mas considerara isso absurdo demais para levar a sério.

O rabino volta para casa, cava atrás do fogão e encontra o tesouro.

A lição é dupla. O que nos salva está perto, enterrado no centro vivo do nosso ser. Mas muitas vezes só descobrimos isso depois de uma longa viagem exterior. E, curiosamente, quem nos revela o sentido da jornada é o estrangeiro: o outro, o diferente, aquele que não pertence à nossa crença nem à nossa cultura.

O encontro com o distante devolve-nos ao mais íntimo.

Essa é a dinâmica profunda de toda verdade reencontrada.

Mito e psicologia profunda

O “atrás do fogão” é imagem do centro que aquece e sustenta a vida: o coração do coração. Psicologicamente, trata-se da interioridade esquecida. O mito opera como mapa simbólico dessa escavação. Ele orienta a travessia para dentro ao mesmo tempo em que exige deslocamentos para fora.

A viagem e o retorno, o estrangeiro e a casa, o longe e o íntimo formam um único movimento de autoconhecimento.

Daí a atualidade do mito: ele oferece uma linguagem para aquilo que a racionalidade pura não alcança, sem por isso negar a lucidez.

O cinema como ritual imperfeito

O mundo contemporâneo criou novos palcos para essa experiência de suspensão do tempo. A sala escura do cinema funciona como um limiar: por algumas horas, o tempo cotidiano é substituído pelo tempo da narrativa. Séculos passam em minutos, segundos se expandem em eternidades. Vivida muitas vezes em grupo, essa imersão coletiva lembra o recolhimento ritual dos antigos iniciados.

Os grandes heróis das telas cumprem papel semelhante ao dos heróis míticos: encarnam justiça, sacrifício, poder, redenção. Histórias de origem funcionam como cosmogonias modernas, explicando “como tudo começou”. A ficção científica e a fantasia, ao explorar multiversos e viagens no tempo, tocam diretamente na velha aspiração humana de não ficar presa a uma única linha temporal.

Há, porém, uma diferença decisiva.

No mito vivido como rito, a narrativa retornava ao cotidiano e o transformava. O indivíduo sentia-se responsável por manter a ordem do mundo. No cinema e nas séries, a experiência costuma terminar com os créditos finais. O espectador volta para a mesma rotina dessacralizada. O alívio é real, mas provisório.

O mito antigo integrava. O mito consumido distrai.

Para além da fuga: um novo humanismo

Compreender o mito é uma das grandes conquistas do pensamento moderno porque nos devolve algo que nunca perdemos totalmente: a capacidade de encontrar, no interior da própria vida, fontes de sentido que atravessam épocas e culturas.

Não se trata de restaurar o passado, mas de reativar em nós as fontes espirituais que deram origem às grandes criações humanas. O mito mostra que, apesar das diferenças históricas, todos partilhamos a mesma angústia diante do tempo e o mesmo desejo de um centro que aqueça a existência.

Quando reconhecemos o que ainda é mítico em nossa vida — nos sonhos, nas buscas, nas jornadas que fazemos para depois voltar para casa — abrimos espaço para um humanismo verdadeiramente amplo: não baseado apenas em conquistas técnicas, mas na experiência comum de procurar, perder-se, viajar e finalmente escavar, em silêncio, o tesouro escondido em nosso próprio chão.

Um abraço,

Paulo Cesar T. Ribeiro

  • Psicoterapeuta de adolescentes, adultos e gestantes e Psicólogo Orientador Parental
  • Escritor.
  • Contatos: www.psipaulocesar.psc.br

PESSOAS FRIAS E MANIPULADORAS: COMO RECONHECER E SE PROTEGER NO DIA A DIA - SEM PERDER A PAZ

Quando ouvimos a palavra psicopata, muita gente imagina automaticamente uma figura criminosa, violenta, quase cinematográfica. É compreensível: por décadas, filmes, séries e manchetes ajudaram a construir essa imagem de alguém cruel, sádico e fora de qualquer limite. Mas a realidade clínica costuma ser menos barulhenta e, por isso mesmo, mais difícil de reconhecer.

Em muitos casos, a psicopatia e os comportamentos antissociais não aparecem como crimes graves. Eles surgem como frieza emocional, manipulação, ausência de responsabilidade afetiva, jogos de culpa e uma habilidade impressionante de preservar boa aparência social. E é justamente aí que mora um dos maiores desafios: há pessoas que convivem anos com alguém assim — como parceiro, familiar, chefe, colega ou amigo — e só percebem o estrago depois de um longo processo de desgaste interno.

Por isso, o objetivo deste artigo é simples e prático: ajudar você a reconhecer dinâmicas típicas, entender o que pode estar acontecendo e aprender a se proteger sem perder a humanidade. Não se trata de transformar o leitor em “perito” em diagnóstico, nem em alguém que olha o mundo com paranoia. Trata-se de oferecer lucidez para quem sente que algo está errado, mas não consegue nomear o que está vivendo.

Antes de tudo, vale esclarecer uma confusão comum. No cotidiano, os termos psicopatia, sociopatia e comportamento antissocial são usados como sinônimos. Na clínica e na pesquisa, existem diferenças e nuances. Para o público leigo, um bom jeito de compreender é pensar em gradações. O termo “comportamento antissocial, ou, mais oficialmente, Transtorno de Personalidade Antissocial - é a classificação mais comum nos manuais diagnósticos, descrevendo um padrão persistente de violação de regras, irresponsabilidade e pouca ou nenhuma culpa pelos danos causados. A psicopatia, por sua vez, é muito estudada, especialmente em contextos forenses, mas não costuma aparecer como diagnóstico separado em alguns manuais; ainda assim, o conceito permanece importante porque descreve um conjunto de características marcadas por frieza afetiva, charme superficial, manipulação e ausência de empatia emocional autêntica, muitas vezes com uma aparência social organizada e calculada. Já a sociopatia costuma ser entendida como uma configuração mais reativa e impulsiva, com explosões emocionais, instabilidade e dificuldade de se adaptar às normas, podendo, em alguns casos, manter vínculos restritos com pessoas específicas, ainda que de forma limitada. Na prática, o que importa não é “fechar um rótulo”, mas perceber quando a convivência vira um padrão repetitivo de abuso emocional, manipulação e ausência de reciprocidade.

Uma parte central do sofrimento moderno vem do que se descreve como “máscara de sanidade”: pessoas que conseguem circular socialmente com aparência normal, até encantadora, mas que por dentro funcionam com baixa empatia, egocentrismo e uma visão instrumental dos outros. Essas pessoas podem ser o parceiro que se mostra irresistível no início e depois vira um campo minado, o colega “agradável” que faz você sempre sair como culpado, o chefe carismático que parece competente mas destrói a equipe por dentro, ou o parente “bonzinho” que controla tudo com chantagem emocional. E isso explica por que tantas vítimas dizem algo como: “mas ele nunca me bateu…”. Sim, não bateu. Mas esvaziou. Confundiu. Desorganizou. Feriu. Há violências que não deixam hematomas e, ainda assim, fazem a alma sangrar.

E como esses padrões aparecem no dia a dia? Aqui é importante dizer: não existe um “teste caseiro” para diagnosticar alguém. Mas existem sinais relacionais que merecem atenção, sobretudo quando se repetem de maneira consistente. Um deles é o charme acompanhado de pressa emocional: a pessoa acelera a intimidade, promete demais, fala de “destino”, “conexão rara”, cria uma sensação de grande intensidade e prende você rapidamente. Outro sinal comum é a manipulação sutil: ela não pede, ela conduz. E quando você percebe, já está cedendo por culpa, medo ou confusão. Muitas vezes também há a simulação de afeto: a pessoa entende suas emoções, sabe o que dizer, mas não se comove de verdade com elas. Ela pode saber o que você sente, mas não sente com você. Em vez de encontro, há cálculo.

Em muitos casos, o que mais destrói é uma técnica psicológica quase invisível: o gaslighting. Não se trata apenas de mentir. Trata-se de minar sua confiança na própria percepção. Surgem frases como “você é sensível demais”, “você imagina coisas”, “você está exagerando”, “você está ficando instável”. Aos poucos, a vítima começa a duvidar da própria memória, da própria intuição e até do próprio valor. E uma consequência quase inevitável é a inversão do papel de vítima. Quando confrontada, a pessoa não repara. Ela se vitimiza. Ela vira o ferido, o injustiçado, o incompreendido. E quem denuncia passa a ser visto como agressor. Esse mecanismo é especialmente eficaz porque sequestra a empatia do outro e transforma a dor em arma.

Somado a isso, aparece a falta de responsabilidade afetiva. Não há pedido de desculpas verdadeiro, ou até existe um “desculpa”, mas o padrão se repete. Sem mudança real, a palavra vira estratégia. Muitas vezes também há uma relação flexível com regras e acordos: promessas quebradas, pequenas mentiras, combinações reescritas conforme o interesse do momento. A pessoa que convive entra num esforço interminável de se ajustar - e quase sempre perde.

O impacto desse tipo de convivência costuma ser profundo e gradual. Não é um choque que acontece em um dia. É um desgaste contínuo. Quem convive começa a apresentar ansiedade, hipervigilância, sensação de estar sempre pisando em ovos, baixa autoestima, confusão mental e culpa crônica. Em muitos casos, surge também isolamento, porque a vítima sente que ninguém vai acreditar nela. E existe um detalhe cruel: o agressor costuma preservar uma imagem pública muito boa, enquanto a vítima aparece “nervosa”, “instável”, “dramática”. Isso aumenta a solidão emocional e a sensação de impotência.

Diante disso, como se prevenir? Aqui está uma das partes mais importantes para qualquer leitor leigo. Prevenção não é “descobrir quem é psicopata”. Prevenção é não se perder de si mesmo dentro de uma dinâmica adoecedora. Um primeiro ponto é confiar nos sinais repetidos e não apenas no episódio isolado. Todo mundo erra. Mas o que adoece é o padrão: repetir, negar, inverter e desgastar. Um segundo ponto é observar como você se sente depois do contato. Relações saudáveis podem ser difíceis, mas não te deixam menor. Se toda conversa termina com dúvida, culpa e confusão, isso é um sinal. Também é importante evitar entregar sua vida íntima com profundidade a quem não demonstra cuidado consistente: pessoas manipuladoras podem usar vulnerabilidades como mapa.

Um exercício simples e poderoso é colocar limites claros e observar a reação. Um limite saudável não precisa gritar. Ele pode ser calmo: “não aceito esse tom comigo”, “eu preciso de respeito nessa conversa”, “sobre isso, minha decisão está tomada”. E o que realmente importa é a resposta do outro. Alguém emocionalmente saudável pode se frustrar, mas tenta reparar. Uma personalidade manipuladora tende a atacar, punir, ridicularizar ou inverter o jogo. E, quando o ambiente é assim, ter rede de apoio se torna vital. Ninguém se protege sozinho. Uma rede não precisa ser uma multidão: bastam duas ou três pessoas confiáveis que devolvam realidade.

Em alguns casos, conversar não melhora. Piora. Porque o outro não quer construir: quer vencer. E então pode ser necessário um distanciamento emocional como forma de autocuidado. Distanciamento não é frieza. É proteção. É parar de se oferecer como alvo. É reduzir exposição, reorganizar a vida, recuperar o centro interno. Às vezes, a solução não é diálogo - é redução de contato, limites firmes e, quando necessário, afastamento gradual.

E a pergunta que sempre aparece é: “mas tem tratamento? dá para mudar?”. Nos casos graves, o prognóstico costuma ser limitado. Muitas dessas pessoas não procuram ajuda por sofrimento interno, e sim por conveniência, pressão externa ou interesses secundários. Nos quadros mais leves e subclínicos, pode haver alguma melhora comportamental - especialmente quando existe certo grau de consciência, algum medo de perder vínculos ou um desejo real de funcionar melhor. Ainda assim, é fundamental que o leitor leigo compreenda uma realidade dura, mas libertadora: o foco do cuidado quase sempre precisa estar mais em quem convive do que em quem agride. Porque é o convivente que adoece tentando entender, provar, consertar e salvar.

E aqui chegamos a um ponto de humanidade essencial. Existe uma diferença vital entre compreender e se sacrificar. Compreender ajuda você a sair do labirinto mental. Mas se sacrificar para manter um vínculo destrutivo é outra coisa: é desistir de si. Se você convive com alguém emocionalmente frio, manipulador ou antissocial em algum grau, não precisa cair no ódio nem na paranoia. Precisa, acima de tudo, de lucidez para enxergar o padrão, limites para proteger seu espaço interno e apoio para não carregar isso sozinho. Porque convivência humana não deveria ser um jogo de sobrevivência emocional. Relações existem para sustentar a vida - não para consumir a alma.

E se você estiver saindo de uma dinâmica assim, guarde uma frase como lembrança e cura: o que você perdeu não foi “fraqueza”. Foi energia tentando amar alguém que não sabe amar de volta.

Um abraço,

Paulo Cesar T. Ribeiro

  • Psicoterapeuta de adolescentes, adultos e gestantes e Psicólogo Orientador Parental
  • Escritor.
  • Contatos: www.psipaulocesar.psc.br

  • Veja a VITRINE DOS MEUS LIVROS. Clique neste link: https://www.blogdopsicologo.com.br/2025/11/vitrine-dos-meus-livros.html 
  • Faça parte da COMUNIDADE PSICOLOGIA EM FOCO no meu whatsapp. 
  • ACESSO: https://chat.whatsapp.com/LtAVKx2LcS5GQIXk92xwjT 

ACORDO PSICOTERAPÊUTICO E NORMAS DE FUNCIONAMENTO ENTRE PACIENTE E PSICÓLOGO PAULO CESAR T. RIBEIRO


ACORDO TERAPÊUTICO E NORMAS DE FUNCIONAMENTO

Um Cuidado Compartilhado Sobre o Nosso Trabalho



Este texto foi escrito com a intenção de tornar mais claro, seguro e acolhedor o espaço da psicoterapia. Ele não substitui o diálogo - ao contrário, existe para sustentá-lo.

A psicoterapia é um encontro humano, atravessado por afetos, limites, responsabilidades e escolhas. Quando essas bases estão bem compreendidas, o trabalho se torna mais profundo, respeitoso e possível.

Ao iniciar ou manter um processo psicoterapêutico comigo, peço que você leia com atenção os pontos abaixo:

  • Sobre a Psicoterapia

A psicoterapia é um espaço de escuta, reflexão, elaboração emocional e tratamento das condições psicológicas do paciente. Não se trata de respostas prontas, conselhos rápidos ou soluções imediatas, mas de um processo construído ao longo do tempo, no ritmo possível para cada pessoa. Portanto, exige tempo, regularidade e envolvimento, não se configurando como aconselhamento pontual, orientação imediata ou solução rápida de problemas.

Reforçando, o compromisso com a regularidade e com o próprio processo é parte essencial do cuidado.

Os resultados dependem de múltiplos fatores, incluindo a disponibilidade emocional do paciente e a continuidade do trabalho com frequência regular.

  • Sigilo Profissional

Tudo o que é compartilhado em sessão é protegido por sigilo profissional, conforme o Código de Ética do Psicólogo.

O sigilo só poderá ser rompido em situações previstas em lei, como risco grave à vida do paciente ou de terceiros, ou mediante autorização expressa do próprio paciente.

O "set" psicoterapêutico é um espaço de segurança psíquica.

  • As Sessões

As sessões têm duração média de 50 minutos.

Estas informações tem como objetivo esclarecer as condições básicas do trabalho psicoterápico, garantindo transparência, respeito mútuo e um enquadre adequado para o cuidado psicológico.

O horário é reservado exclusivamente para o paciente.

Atrasos não implicam extensão do tempo da sessão.

A frequência (semanal ou outra) será definida em comum acordo, conforme a necessidade clínica.

  • Faltas e Cancelamentos

Cancelamentos devem ser comunicados com antecedência mínima de 24 horas.

Sessões não canceladas dentro desse prazo, assim como faltas sem aviso, serão cobradas, pois o horário foi reservado exclusivamente para você.

Em casos excepcionais, o psicólogo avaliará a situação de forma ética e sensível.

  • Honorários

O valor da sessão é previamente acordado.

O pagamento deve ser realizado conforme combinado (normalmente mensal).

Reajustes poderão ocorrer periodicamente, sempre com aviso prévio.

A psicoterapia é um serviço profissional, e a regularidade e a clareza financeira fazem parte do enquadre que sustenta o cuidado psicoterápico.

  • Modalidade Online

Nas sessões online, é importante que o paciente esteja num local reservado, silencioso e  com conexão adequada.

Problemas técnicos que inviabilizem a sessão serão avaliados caso a caso.

A confidencialidade depende também do cuidado do paciente com o ambiente em que se encontra.

  • Contato Fora das Sessões

O contato fora do horário terapêutico deve ser restrito a questões administrativas (horários, pagamentos, agendamentos, remarcações) e urgências.

A psicoterapia acontece prioritariamente no espaço da sessão, onde devem ser tratadas as demandas emocionais mais extensas. Entretanto, em situações de urgência e havendo disponibilidade do psicólogo, será possível a realização de uma sessão antes do horário regularmente revervado para o paciente.

  • Interrupção do Processo

A psicoterapia pode ser interrompida:

O processo psicoterápico pode ser interrompido pelo paciente, a qualquer momento., e pelo psicólogo, quando avaliar que o processo não há condições éticas ou clínicas para continuidade.

Sempre que possível, recomenda-se que essa decisão seja conversada em sessão, como forma de fechamento e elaboração.

  • Sobre Este Texto e a Confirmação de Leitura

Este acordo existe para cuidar do espaço terapêutico, do vínculo e da qualidade do trabalho que construímos juntos. Ele não é, de modo algum, um instrumento punitivo, mas um suporte para que a psicoterapia aconteça com clareza, respeito e segurança.

Caso você tenha recebido o link deste texto por mensagem, peço, por gentileza, que responda confirmando que recebeu e realizou a leitura. Essa confirmação não é burocrática - ela é apenas um gesto simples de cuidado compartilhado e clareza mútua.

A confirmação pode ser feita por mensagem de whatsapp, email ou no espaço para comentários (após o texto), no Blog do Paicólogo.

Obrigado,

Psicólogo Paulo Cesar T. Ribeiro

Prólogo do livro SALMO 133 NA MAÇONARIA - UNIÃO, EGO E FRATERNIDADE

 Queridos Irmãos,

Com alegria, informo a vocês que escrevi o livro Salmo 133 na Maçonaria - União, Ego e Fraternidade, uma leitura psicológica e simbólica para o mundo contemporâneo, fruto do diálogo entre minha vivência maçônica e a Psicologia.

Neste trabalho, o Salmo 133 é lido não apenas como ideal de união, mas como um espelho simbólico dos desafios reais da convivência fraterna, do ego e da maturidade emocional..

É um livro de 256 páginas em tamanho 16x23 cm, considerando os capítulos e apêncides, e para que tenham uma ideia do tom e da proposta da obra, compartilharei a seguir o Prólogo

Ao final, deixarei os links para quem desejar adquirir o livro.

Fraternalmente,
Paulo Cesar T. Ribeiro


***

SALMO 133 NA MAÇONARIA - UNIÃO, EGO E FRATERNIDADE

Prólogo do livro 

 

Há textos que atravessam séculos como se fossem parte da respiração humana. O Salmo 133 é um deles. Curto como um sussurro e profundo como uma montanha, ele sobreviveu não apenas porque é belo, mas porque diz algo essencial sobre o destino humano: nascemos para o encontro, mas não sabemos como habitá-lo.

O tempo, ao passar, faz escolhas. Há textos que se tornam monumentos, outros que se reduzem a vestígios, outros ainda em ruínas que visitamos por curiosidade histórica. O Salmo 133 não pertence a nenhuma dessas categorias. Ele é um rio subterrâneo que atravessa séculos silenciosamente, brotando vez ou outra em pequenas superfícies de água pura, mas cujo curso profundo não se revela a quem apenas recita palavras. Seu poder não está na letra, mas na atmosfera que cria, na forma como toca o espaço psicológico entre os seres, na vibração que produz quando é lido não como poesia religiosa, mas como um estado interior.

Em um século marcado pela cultura do espelho, onde a predominância do ego é confundida com força e o vínculo fraterno se tornou uma commodity emocional descartável, o Salmo 133 ressurge não como uma citação antiga, mas como um antídoto existencial para a fragmentação contemporânea.

É por isso que ele sempre esteve presente no coração da Maçonaria, mesmo quando não se falava explicitamente dele. Incorporou-se ao rito sem anúncio, como se tivesse intuído que ali encontraria uma morada adequada: um espaço simbólico onde a fraternidade é menos um ideal e mais uma construção laboriosa do espírito.

O maçom que avança em silêncio pelo Templo talvez não perceba que, antes de atravessar qualquer grau, ele atravessa um estado de consciência. E este estado foi anunciado por Davi quando escreveu: “Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em “união”. A frase parece simples demais para inaugurar um caminho iniciático, mas sua simplicidade esconde um paradoxo: a “união” é sempre uma obra difícil.

E mais: ela é “suave”. Mas essa suavidade não é fraqueza. Ela é a força que se expressa sem violência; a potência que se manifesta sem atrito.

“união” é “suave” porque só pode surgir quando a aspereza do ego foi polida pelo ritual, quando o impulso natural de predominância foi substituído pela humildade da presença. Ela não se impõe; ela acontece quando o espírito encontra disciplina interna suficiente para escutar, acolher e sustentar o vínculo.

O rito a evoca simbolicamente no encontro de olhares, na contenção da palavra, no gesto de respeito mútuo, na tentativa de suspender - ainda que por instantes - as turbulências do ego. Ao entrar no Templo, o irmão não se torna automaticamente unido a ninguém; ele se coloca diante de um estado que precisa aprender a habitar, e este estado é, em essência, o Salmo 133 respirando através dele.

O portal ritual do Salmo 133 não é uma porta física ou um limite explícito; é um movimento de consciência. A “união” que ele celebra não é espontânea, nem sentimental, nem ingênua. Ela é construída como se se erguesse uma ponte entre territórios que, por natureza, não se compreendem de imediato.

O ego humano raramente deseja a “união”; ele deseja predominância, reconhecimento, segurança. A fraternidade, enquanto experiência psíquica, é um chamado contra a gravidade natural da psique, e o rito torna visível essa luta interior. Por isso o azeite que escorre sobre a “cabeça” de Aarão é uma metáfora adequada: a “união” exige um movimento vertical que desce sobre nós, uma descida suave que penetra as zonas onde a alma resiste, onde preferiríamos permanecer isolados, protegidos, intactos. A “união” ritual é um “óleo” que encontra fissuras e nelas repousa.

Entrar no Templo é, portanto, fazer o gesto de se deixar alcançar por essa descida. Não é raro que os irmãos, mesmo os mais antigos, experimentem uma espécie de apaziguamento interior ao adentrar o espaço sagrado. Este apaziguamento não é mera associação afetiva ou nostalgia fraternal: é o reconhecimento, ainda que inconsciente, de que colocamos o pé em um território que suspende a lógica ordinária do mundo.

As tensões da vida profana não desaparecem, mas se reorganizam diante de algo mais amplo. O Salmo 133 age como um campo sutil, um convite à diminuição do ruído interno para que a percepção da presença do outro possa emergir com mais nitidez. Em outras palavras, ele prepara o psiquismo para o encontro.

E é desse encontro que nasce a verdadeira ritualidade. Nada no rito é apenas decorativo. Os símbolos - o compasso, o esquadro, a pedra bruta, o malhete - não falam de objetos, mas de estados psíquicos. Cada um deles aponta para um processo de transformação em que a “união” é o horizonte, não o ponto de partida.

Um irmão não se torna fraterno porque conheceu outro irmão; ele se torna fraterno porque permitiu que algo dentro dele fosse polido, reorientado, afinado. O Salmo não descreve uma “união” já conquistada: descreve uma “união” a ser continuamente reencenada. A cada reunião, a cada gesto, a cada silêncio compartilhado, o Templo se torna laboratório de um modo de ser que o mundo exterior raramente incentiva.

Talvez seja por isso que, para muitos maçons, a sensação de “voltar para casa” ao entrar no Templo não seja apenas emotiva, mas simbólica. A casa dos irmãos que o Salmo implicitamente menciona não é um lugar: é um estado. E como todo estado interior, ele precisa ser cultivado.

Não existe fraternidade madura sem vigilância constante, sem cuidado com as palavras, sem humildade diante dos próprios limites, sem a consciência de que o vínculo humano pode ser tão delicado quanto o “orvalho” que repousa sobre o Monte Hermon. É significativo que o Salmo utilize o “orvalho” como metáfora: ele não cai com violência, não se anuncia, não altera a paisagem abruptamente. Ele sustenta a vida com suavidade. A verdadeira “união” também age assim: discretamente, sustentando o que não aparece.

Quando o Salmo 133 ressoa dentro do Templo, mesmo que não seja lido, ele cria uma moldura invisível na qual os irmãos se reconhecem como participantes de uma obra comum. Não uma obra externa, mas uma obra interior. O rito não apenas conduz o maçom: ele o afina. Ele o coloca em uma frequência onde virtudes como paciência, escuta, cooperação e presença podem emergir com menos resistência.

E é precisamente essa frequência que Davi captou quando escreveu o Salmo. Ele não estava descrevendo um ideal utópico; estava descrevendo uma realidade possível - porém frágil - que só se sustenta quando há consciência do esforço necessário para mantê-la viva.

Assim, este texto inicial se volta ao coração do rito não para explicá-lo, mas para revelar que há um portal simbólico que antecede tudo. Antes de qualquer grau, antes de qualquer luz, antes de qualquer viagem, existe a necessidade de atravessar o estado interior que o Salmo 133 evoca. Ele é o limiar entre o homem que adentra o Templo e o homem que sai dele transformado, mesmo que de forma sutil.

A Maçonaria não adota o Salmo 133 como enfeite ou citação honrosa: ela o respira. E quando o maçom se permite entrar nessa respiração, o rito se torna não apenas um caminho de instrução, mas um caminho de “união” consigo, com o outro e com aquilo que transcende ambos.

Mas esse estado de consciência não se sustenta apenas no abstrato; ele é forjado em memória, gesto e ancestralidade. Antes de respirarmos o Salmo com a alma, precisamos honrá-lo em sua raiz concreta, compreendendo o que significavam o “óleo” e o “orvalho” para o homem que o escreveu e o que significam os gestos que o maçom reencena no Templo. É a partir dessa fundação histórica e mitológica que o símbolo se liberta para se tornar ferramenta psicológica.

***
Este livro está disponível para compras em 03 sites:


COMO ALGUÉM COMEÇA A EXISTIR COMO ALGUÉM?

 Uma conversa clínica com quem está começando a escutar

 

Ao longo dos anos de clínica, tive a oportunidade de atender muitos estudantes de Psicologia, profissionais recém-formados, psicoterapeutas já experientes vivendo momentos de impasse e também médicos que, em determinado ponto de suas trajetórias, decidiram acrescentar a psicoterapia aos serviços que ofereciam. Cada um chegou por caminhos distintos, com formações e histórias diferentes, mas quase sempre trazendo uma inquietação comum: como sustentar a escuta sem se perder nela?

Esses encontros foram me mostrando que, independentemente do tempo de experiência, há perguntas que retornam. Perguntas sobre técnica, sobre limites, sobre o que fazer quando o sofrimento do outro não se organiza em sintomas claros, quando a interpretação parece insuficiente ou quando a sensação de não estar ajudando começa a pesar. Muitas dessas conversas não giravam em torno de escolas teóricas específicas, mas da experiência viva de estar diante de alguém que sofre e de se perguntar, silenciosamente, qual é o lugar possível do terapeuta ali.

É pensando nessas pessoas - nos estudantes que estão dando seus primeiros passos, nos profissionais que ainda tateiam o próprio estilo clínico, nos colegas que já caminharam bastante e, ainda assim, se permitem duvidar - que escrevo este texto. Não como manual, nem como orientação técnica definitiva, mas como um compartilhamento de percurso, construído a partir do que a clínica foi me ensinando com o tempo.

O que segue não é um conjunto de respostas prontas, mas uma tentativa de colocar em palavras uma ética de escuta que fui construindo aos poucos. Uma ética que se sustenta menos na pressa de compreender e mais no cuidado de não interromper aquilo que, em cada paciente, ainda tenta nascer.

Quando comecei a atender, eu acreditava que ser psicoterapeuta era, sobretudo, entender. Entender rápido. Entender bem. Entender antes do paciente, se possível. Eu estudava, anotava, interpretava. Havia em mim uma urgência silenciosa: se eu conseguisse nomear o sofrimento do outro, talvez ele diminuísse. Talvez eu estivesse fazendo um bom trabalho.

Com o tempo - e não foi pouco tempo - a clínica foi me ensinando outra coisa.

Muitos pacientes não chegam trazendo conflitos organizados ou sintomas que pedem decodificação simbólica. Eles chegam com algo mais primário e mais difícil de nomear: uma sensação difusa de vazio, irrealidade, cansaço de existir. Não perguntam diretamente “o que isso significa?”, mas comunicam, de muitas formas, a experiência de não se sentirem plenamente existentes.

Foi nesse contexto que uma pergunta passou a orientar meu trabalho clínico: como alguém começa a existir como alguém? Não como paciente, não como diagnóstico, não como sujeito funcional ou adaptado - mas como alguém que sente que a própria vida lhe pertence.

Na prática clínica, essa pergunta exige reconhecer que há sofrimentos que não se organizam a partir do conflito neurótico clássico. Há pacientes cujo sofrimento está ligado a falhas precoces de sustentação emocional, falhas que comprometeram a continuidade da experiência de ser. Nesses casos, a interpretação - especialmente quando precoce - pode produzir mais fragmentação do que integração.

Aprendi, muitas vezes errando, que interpretar nem sempre é cuidar. Em certos momentos, interpretar pode se tornar uma intervenção intrusiva. Não por falta de técnica, mas por inadequação temporal. O paciente ainda não dispõe de um self suficientemente integrado para se beneficiar da interpretação. Antes disso, ele precisa de experiências de sustentação.

No início da carreira, a interpretação funciona quase como um salva-vidas. Ela nos protege da angústia do silêncio, da sensação de não saber, do medo de “não estar fazendo nada”. Mas aprendi - muitas vezes tarde demais — que interpretar cedo demais pode ser uma forma elegante de interromper o que ainda está tentando nascer.

Há pessoas que não precisam ser interpretadas. Precisam ser sustentadas.

Demorei para aceitar isso. Sustentar dá mais trabalho do que interpretar. Sustentar exige que eu esteja inteiro, e não apenas intelectualmente preparado. Exige tolerar não compreender tudo, não organizar tudo, não avançar no ritmo que aprendi nos livros. Exige suportar ver alguém existir de modo precário, instável, confuso - sem tentar consertar isso imediatamente.

Ao longo dos anos, fui compreendendo que minha função clínica, em muitos atendimentos, não era promover insight, mas não interromper o processo de vir-a-ser do paciente. Isso implica oferecer um enquadre estável, uma presença confiável e uma relação que não exija desempenho psíquico imediato.

Assumir a clínica como sustentação do ser modifica profundamente a posição do terapeuta. Passamos a reconhecer que o silêncio pode ser terapêutico, que a regressão pode ser necessária e que o ritmo do paciente deve prevalecer sobre a ansiedade do terapeuta por resultados.

Nesse ponto, o conceito de falso self também mudou de lugar para mim. Ele deixou de ser algo a ser desmontado e passou a ser compreendido como uma organização defensiva necessária, construída para garantir sobrevivência psíquica em contextos ambientais insuficientes. O trabalho clínico não é eliminar o falso self, mas criar condições para que o verdadeiro self possa emergir com segurança.

Essa emergência não acontece por convencimento, mas por experiência. Ela aparece quando o paciente sente que não será invadido, corrigido ou abandonado. Quando percebe que pode existir no espaço clínico sem precisar se adaptar constantemente às expectativas do outro.

Um indicador clínico importante desse processo é a possibilidade de brincar. Brincar, aqui, não no sentido lúdico infantil, mas como capacidade de transitar entre realidade interna e externa com relativa liberdade. Quando o paciente começa a brincar - com ideias, palavras, imagens, associações ou silêncios - algo da vitalidade psíquica está sendo restaurado. Onde não há brincar, a vida tende a se tornar obrigação, desempenho, controle. A clínica, quando perde o brincar, vira mais um espaço de exigência. Dentre as referências, recomendo que leia livros do Winnicott.

Nesse percurso, encontrei grande ressonância no humanismo, no existencialismo e na psicologia budista. Cada uma dessas abordagens, à sua maneira, sustenta uma ética clínica baseada no respeito à experiência vivida e na recusa de intervenções invasivas ou normativas. Elas nos lembram que o sofrimento humano não é um erro a ser corrigido, mas uma experiência a ser acolhida e compreendida no tempo possível.

Uma das aprendizagens mais importantes foi reconhecer que nem todo sofrimento pede interpretação. Alguns pedem presença. Presença estável, não intrusiva, capaz de sobreviver ao silêncio, à dependência e à desorganização temporária do paciente. Presença que diz, sem palavras: eu fico.

Essa posição clínica exige maturidade emocional do terapeuta. Exige tolerância à incerteza, à lentidão e ao sentimento de “não estar fazendo nada”. Exige, sobretudo, a capacidade de sustentar o paciente sem recorrer precocemente à técnica como defesa contra a própria angústia.

Com o tempo, minha concepção de saúde também se transformou. Saúde deixou de ser ausência de sofrimento ou resolução de conflitos. Passei a reconhecê-la quando o paciente começa a sentir que a vida vale a pena ser vivida, mesmo em meio à dor. Quando ele se sente real, presente, autor da própria experiência - não apenas funcionando.

Se você está começando agora na clínica, talvez eu possa lhe dizer algo que ninguém me disse com clareza: você não precisa saber tudo. Não precisa interpretar tudo. Não precisa salvar ninguém. O que você precisa, sobretudo, é não destruir o que ainda tenta nascer.

Ao longo da prática clínica, aprendemos que nem todo sofrimento pede compreensão imediata, e que nem toda intervenção precisa se traduzir em interpretação. Há momentos em que a tarefa terapêutica fundamental é oferecer um espaço suficientemente estável para que a experiência possa se organizar por si mesma.

Para quem inicia na clínica, talvez seja importante lembrar que o trabalho mais delicado não é acelerar processos, mas não interromper aquilo que ainda tenta nascer. Sustentar a escuta, respeitar o tempo do paciente e reconhecer os limites da técnica são gestos simples, mas profundamente transformadores.

Em muitos casos, a psicoterapia não começa quando o paciente entende, mas quando ele passa a se sentir real. E acompanhar esse processo, com presença e responsabilidade, já é um exercício clínico de grande profundidade.

Em muitos casos, ser psicoterapeuta é simplesmente oferecer um espaço suficientemente confiável para que alguém possa, talvez pela primeira vez, começar a existir como alguém.

E isso, do ponto de vista clínico, já é um trabalho profundo.

Um abraço,

Psicólogo Paulo Cesar T. Ribeiro

  • Psicoterapeuta de adolescentes, adultos, casais e gestantes – Presencial e Online.
  • Psicólogo Orientador Parental
  • Escritor.
  • Contatos: www.psipaulocesar.psc.br
Veja a VITRINE DOS MEUS LIVROS: https://www.blogdopsicologo.com.br/2025/11/vitrine-dos-meus-livros.html

M NATAL POSSÍVEL: PRESENÇA, ACOLHIMENTO E HUMANIDADE - Aos meus parentes, amigos e clientes

 UM NATAL POSSÍVEL: PRESENÇA, ACOLHIMENTO E HUMANIDADE

Uma mensagem aos meus parentes, amigos e a todos que caminham comigo na psicoterapia


À medida que o ano se aproxima do fim, somos naturalmente convidados a olhar para dentro. O Natal chega envolto em luzes, encontros e símbolos de renovação, mas, sobretudo, traz um chamado mais silencioso: cuidar do que é essencial. Cuidar daquilo que fomos, do que atravessamos e do que ainda estamos nos tornando.

Neste momento especial, deixo um abraço afetuoso aos meus parentes, amigos e a todas as pessoas que, de formas diferentes, caminharam comigo ao longo deste ano — inclusive aqueles que confiam a mim partes sensíveis de suas histórias no espaço da psicoterapia. Cada vínculo, cada encontro e cada conversa fez parte de um tempo de aprendizados, desafios e amadurecimento. E por isso, a palavra que mais se impõe é gratidão.

Aos familiares e amigos, desejo um Natal de aproximação verdadeira. Que possamos estar juntos não apenas nos rituais externos, mas na presença real: em conversas simples, risos espontâneos e silêncios que confortam. Que o afeto circule sem pressa, sem cobranças e sem a necessidade de perfeição. Muitas vezes, estar disponível já é o maior gesto de amor.

Aos meus clientes, meu desejo é profundamente respeitoso. A psicoterapia é um encontro humano, antes de tudo. Um espaço de coragem — coragem de olhar para dentro, de revisitar histórias, de nomear dores e de construir novos sentidos. Testemunhar cada pequeno passo, cada insight e cada conquista é um privilégio. Que neste Natal você possa ser gentil consigo mesmo. Que não haja exigência de felicidade, mas permissão para sentir o que for possível sentir.

O Natal não precisa ser ideal. Ele pode ser verdadeiro.

Se houver alegria, que ela seja simples. Se houver saudade, melancolia ou cansaço, que tudo isso encontre acolhimento.

Não há nada de errado em viver emoções ambíguas nesta época. Elas também fazem parte da experiência humana. Que este período seja um ponto de pausa. Um intervalo necessário para respirar, descansar da autocrítica, silenciar comparações e respeitar os próprios limites. O cuidado que realmente sustenta a vida nem sempre aparece em fotos, mas se revela em gestos cotidianos: dormir melhor, ouvir o corpo, dizer “não” quando preciso, acolher-se sem julgamento.

Desejo que este seja um Natal possível - aquele que respeita sua história, seu momento e seus limites. Um Natal em que a esperança não seja entendida como ausência de dor, mas como a confiança de que é possível atravessar a vida com mais presença, dignidade e humanidade.

Que o novo ciclo que se aproxima traga menos exigência e mais consciência. Mais verdade nos vínculos. Mais compaixão consigo mesmo. Mais cuidado com o que realmente importa.

Recebam meu carinho, minha gratidão e meus votos sinceros.

Que o Natal seja um tempo de reconexão — com a vida, com os vínculos e consigo mesmo.

Feliz Natal e excelente ano novo!

Com afeto, presença e cuidado.

Paulo Cesar

PROJEÇÃO PSICOLÓGICA: SOMBRAS REVELADAS

 Cap. 05: Projeção Psicológica: Sombras Reveladas

“Para sobreviver à dor psíquica, o self cria divisões e projeta a parte intolerável fora de si. Mas isso cobra um preço nas relações”, Donald Kalsched.

 

A mente humana, em sua complexidade, desenvolve mecanismos para proteger-se da dor psíquica. Entre eles, a projeção talvez seja um dos mais frequentes - e também dos mais difíceis de reconhecer. Trata-se de um processo inconsciente pelo qual aspectos inaceitáveis de nós mesmos são atribuídos a outras pessoas. Ao projetar, deslocamos para o outro, sentimentos, impulsos ou conflitos que não conseguimos acolher em nosso próprio mundo interno. Trata-se, no entanto, de um procedimento que permite que o traço difícil seja aflorado e possa ser abordado, mas sem que o indivíduo o reconheça plenamente em si mesmo.

Projeções podem ser positivas ou negativas, mas é nas negativas  que geralmente  se encontra  o  sofrimento  mais

mais agudo. A crítica intensa, a irritação desproporcional ou o desprezo que sentimos por certas atitudes alheias muitas vezes revelam os comportamentos ou características que não conseguimos ver e aceitar em nós mesmos. É como se o outro se tornasse um espelho - um espelho que rejeitamos porque reflete o que negamos ver e ser.

A projeção é um processo que envolve deslocar os sentimentos de uma pessoa para outra, seja ela um ser humano, um animal ou um objeto. Este termo é frequentemente utilizado para descrever uma projeção defensiva, que se refere à atribuição de impulsos inaceitáveis ​​de uma pessoa e outra. Por exemplo, quando uma pessoa intimida e ridiculariza constantemente um colega por suas inseguranças, é possível que o agressor esteja refletindo suas próprias dificuldades com a autoestima na outra pessoa.

Embora os autores clássicos tenham descrito suas raízes, é no cotidiano das relações que a projeção mostra seu impacto mais contundente. Freud apresentou a projeção pela primeira vez ao descrever uma paciente que, ao enfrentar sua vergonha, buscava escapar dessa realidade ao imaginar que seus vizinhos estavam falando dela. Carl Jung e Marie-Louise von Franz, em suas reflexões, sugeriram que a projeção pode servir como um mecanismo de defesa contra o medo do desconhecido, embora isso possa, em algumas situações, prejudicar quem a utiliza. Compreende-se, igualmente, que as pessoas tendem a projetar em situações que não compreendem como uma resposta natural ao desejo de uma vida mais previsível e claramente organizada. O que acontece é que, por meio desse mecanismo, um pensamento é suprimido e substituído por outro, que se torna um filtro constantemente acessível, através do qual se percebe o mundo.

Esse fenômeno, longe de ser patológico em si, é parte da dinâmica psíquica normal. Todos nós, em algum grau, projetamos. O problema surge quando essa projeção se torna persistente, rígida e interfere nas relações interpessoais. Pais que acusam os filhos de “rebeldes” por expressarem autonomia podem estar projetando a própria dificuldade de lidar com a perda de controle. Parceiros que veem deslealdade em todos os gestos do outro podem estar inconscientemente lidando com sua própria insegurança ou desejo não reconhecido.

Um homem casado que se sente atraído por uma colega de trabalho pode, em vez de considerar essa atração, projetar seus sentimentos ao acusá-la de flertar com ela. Esse é o caso de uma possível projeção, assim como uma mulher que enfrenta uma batalha interna contra o impulso de roubar, e que acredita que seus vizinhos estão tentando invadir seu lar. Um outro exemplo é o de alguém que expressa que outra pessoa está constantemente monitorando seu comportamento, escondendo o medo de alguma insegurança ou segredo íntimo que possa vir à tona.

Em   contextos   de intimidade   emocional, a   projeção   se intensifica. Quanto mais próximo alguém está, mais facilmente se torna alvo de conteúdos internos mal resolvidos. Na relação terapêutica, esse processo pode aparecer de forma intensa, revelando-se nos afetos transferenciais. Um paciente, por exemplo, pode acusar o terapeuta de “distante e frio”, quando, na verdade, está lutando com a própria dificuldade de confiar e se abrir. Outro, ao sentir-se ignorado em pequenas interrupções, pode estar projetando o sentimento de invisibilidade vivido na infância.

A projeção tem também uma função de defesa. Ela nos permite manter uma imagem idealizada de nós mesmos. Ao atribuir ao outro o que nos desagrada, preservamos uma autoimagem coerente com as exigências do superego ou com o ideal de ego. No entanto, isso tem um custo: perdemos a oportunidade de conhecer partes importantes de quem somos, e comprometemos a autenticidade dos vínculos que estabelecemos.

Uma metáfora útil para entender a projeção é a das sombras em uma sala mal iluminada. O que está atrás de nós, e, portanto, fora do nosso campo de visão, projeta uma sombra à frente. Vemos essa sombra no outro, mas ela nos pertence. O que incomoda demais, o que provoca reações intensas e imediatas, quase sempre diz mais sobre nossa história emocional do que sobre o comportamento real do outro. A projeção revela mais sobre o emissor do que sobre o receptor.

Na clínica, um exemplo marcante foi o de uma paciente que acusava o marido de ser “sempre crítico e controlador”. Ao longo do processo terapêutico, veio à tona sua própria rigidez consigo mesma. Crescida em um ambiente em que errar era inaceitável, ela internalizou um padrão de autocrítica feroz. O incômodo com o marido estava, em parte, vinculado à forma como ela mesma se tratava internamente. Ele tornou-se o palco externo onde suas dores silenciosas se projetavam.

A projeção também é comum em dinâmicas familiares. Filhos podem ser alvo das expectativas não realizadas dos pais. Irmãos são comparados, cônjuges acusados de serem o que, no fundo, teme-se ser. Nessas situações, os vínculos se tornam distorcidos, pois o outro deixa de ser visto como é, e passa a ser moldado por lentes subjetivas.

Uma consequência prejudicial da projeção constante é quando essa característica se torna parte da identidade do indivíduo. Um pai que não alcançou uma carreira de sucesso pode transmitir ao filho mensagens como: “você não vai conseguir nada” ou “nem se dê ao trabalho de tentar”. Observe que o pai está transferindo suas próprias inseguranças para o filho; um desafio surge quando o filho internaliza essa mensagem e começa a acreditar que realmente nunca será bem-sucedido.

Do ponto de vista do autoconhecimento, reconhecer nossas projeções é um passo fundamental. Quando somos capazes de perceber que aquele traço que tanto nos incomoda no outro também habita em nós - ainda que de forma diferente -, abrimos espaço para uma relação mais honesta conosco e com os demais. A psicoterapia é o espaço privilegiado para essa descoberta, pois oferece um espelho simbólico que reflete sem julgar e acolhe sem reforçar o engano.

No dia a dia, como identificar se você está projetando suas emoções ou experiências nos outros? Após aprender que seus temores ou inseguranças são acionados e acarretar projeções, ao suspeitar que pode estar projetando, o primeiro passo é distanciar-se do conflito. A distância proporcionará a oportunidade de deixar suas defesas desaparecerem, permitindo que você reflita de maneira mais clara e racional sobre a situação. A partir desse ponto, você pode (1) descrever o conflito de maneira objetiva, (2) relatar as ações que você praticou e as suposições que formulou, e, por fim, (3) descrever as ações da outra pessoa e as suposições que ela fez. Isso pode ser uma oportunidade para você investigar se e para que pode estar projetando.

O trabalho terapêutico com a projeção exige cuidado. Confrontar diretamente o paciente pode gerar resistência ou retraimento. O terapeuta precisa, com empatia e escuta, ajudar o paciente a enxergar o vínculo entre sua história emocional e os conflitos atuais. Pequenas perguntas reflexivas como “Você já sentiu algo parecido antes?”, “Que parte dessa reação lhe parece familiar?”, ou “Será que essa leitura pode estar influenciada por algo antigo?” são chaves que abrem janelas para o inconsciente.

A psicoterapia pode ajudar o paciente a identificar conteúdos projetados em relações recorrentes, reintegrar aspectos rejeitados da própria personalidade, além de reduzir o julgamento impulsivo e desenvolver escuta empática. Como consequência, o paciente conseguirá aumentar a consciência sobre padrões emocionais herdados e reestabelecer vínculos mais autênticos, baseados na realidade e não na fantasia.

Projeção não é defeito, é recurso de sobrevivência psíquica. Mas quando se torna regra, impede o crescimento, distorce os vínculos e bloqueia o encontro com o eu real. Ao iluminar as sombras e reintegrar os fragmentos rejeitados, a psicoterapia permite que o sujeito deixe de lutar contra si mesmo. O que antes era fuga se torna reencontro. E o outro, antes espelho de angústias, pode voltar a ser presença, relação e possibilidade de construção mútua.

Um abraço,

Paulo Cesar T. Ribeiro

  • Psicoterapeuta de adolescentes, adultos, casais e gestantes – Presencial e Online.
  • Psicólogo Orientador Parental
  • Psicólogo clínico de linha humanista existencial e de orientação das Psicologias Analítica (Carl Jung), Relacional e Budista.
  • Escritor.
  • Contatos: www.psipaulocesar.psc.br